Martin Fierro, pode-se dizer, foi o segundo quadrado da minha infância. O lugar de honra foi ocupado desde muito cedo pelo Parque Rivadavia, onde moravam meus avós.
Nascido em Balvanera e criado em San Cristóbal, fiz amizade com a praça assim que tive idade suficiente para andar sozinho pelo bairro. Ficava a poucos quarteirões de casa e foi aí que verifiquei a generosidade dos ombues no jogoa vertigem das redes, o encanto das fontes e das esculturas.
Já mudei de endereço diversas vezes, mas nunca consegui sair da minha região de origem. Hoje, morando na confluência de Boedo, Almagro e San Cristóbal, às vezes faço caminhadas que me levam de volta a Martin Fierro. Acontece que recentemente descobri uma placa que tem anos, mas que nunca tinha notado. O protocolo lembra que naquele local, eNuma semana como hoje, mas em 1919deu início ao que mais tarde seria lembrado como Semana Trágica. No início do século XX, as oficinas de Wassena funcionavam na propriedade onde hoje fica a praça. No final de dezembro de 1918, o Sindicato da Resistência dos Metalúrgicos Unidos, de tendência anarquista, entrou em greve para exigir melhores trabalhadores; O conflito, que só crescia, saiu do controle em janeiro. Nas ruas que rodeiam a fábrica (La Rioja, Barcala, Urquiza, Oruro, Constitución, Cochabamba) eclodiram confrontos, montaram-se barricadas e desencadeou-se uma repressão que durou dias e ceifou centenas de vidas, valas comuns, milhares de feridos e muitas detenções. Esse não foi o único equilíbrio. A Revolução de Outubro de 1917 estava ao virar da esquina, o ódio era geralmente simples e, para alguns, ser judeu equivalia a ser “russo”, o que por sua vez equivalia a ser “comunista”. Durante a repressão e greve que paralisou a cidade, eclodiu um massacre que devastou o distrito de Onse.
Antes de ver aquela placa na praça da minha infância, a Semana Santa era apenas um registro histórico. Algo que ecoasse os trágicos acontecimentos da Patagónia, geograficamente mais distante mas mais vívidos na história do filme de Hector Olivera (baseado nos livros de Osvaldo Bayer) que vi no início dos anos oitenta e no cinema vizinho, com o gosto com que assistimos aos filmes que nos permitiram reconhecer a democracia recém-proibida e proibida.
Mas brincar às casinhas à sombra de um ombu perto de algumas das ruas onde ocorreu violência massiva há um século, num Janeiro muito quente, logo após o Dia de Reis… isso é outra história.
A publicação da AMIA comemorativa desses acontecimentos mostra um menino tentando limpar poças de sangue na Avenida Entre Rios. Procuro na internet e encontro a foto de algumas crianças que montaram barricadas naquela semana de 1919. Todos estão sorrindo. Eles são muito jovens, mesmo quando a infância era outra coisa. Não consigo encontrar informações exatas: em que dia, em que rua? Alguns artigos mencionam que há muitos menores entre os mortos.
Eu os imagino. Nove ou dez anos. Os adultos falam de reivindicações, FORA, greve em suas casas. Brincam de colocar paralelepípedo sobre paralelepípedo enquanto empilho pedras entre as raízes do ombú. O que houve entre aquela foto e as primeiras balas?
“Foi a exalação simultânea do último suspiro, o som de almas assustadas fugindo simultaneamente de seus corpos.” É assim que o ganhador do Nobel Han Kang descreve o assassinato de vários meninos em seu romance ações humanas (que recria o Massacre de Gwangju). Talvez não fosse mau deixar de lado a história dos grandes nomes e dos grandes gestos e começar a ouvir a vozinha de tantas crianças deixadas na estrada.






