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Um casal optou por chegar ao casamento no ônibus 109, linha que fizeram anos antes de entrar em suas vidas, um ato quase mecânico – ir trabalhar – que chegou perto e de alguma forma passou a fazer parte de sua história de amor para sempre.
Sem dúvida, muitos se lembrarão dos rituais diários de outra época, quando o pulsar da cidade era tão vivo como agora, mas analógico.
E assim, em qualquer manhã, indo para a escola ou para o trabalho, levantar o braço da calçada era o suficiente para parar o ônibus. Ou não, e então era preciso correr meio quarteirão para chegar lá. Pendure-se no guarda-corpo e viaje com o corpo fora do veículo se a capacidade do veículo estiver cheia de passageiros.
“Já é um bom presente ter alguém atendendo pela manhã / seu sinal de oração e parada.” disse César Mermet (1923-1978), o poeta argentino que morreu sem publicar um único livro, até que sua obra foi resgatada postumamente por Félix della Paolera e Pedro Mairal, revelada e exposta em uma antologia. Borges foi um de seus primeiros leitores.
Invenção argentina por 10 centavos a peça
O coletivo nasceu em Buenos Aires no final da década de 1920, de uma necessidade e travessura típica de Buenos Aires.
Um grupo de taxistas, devido à concorrência do trem, bonde e metrô – as passagens eram bem mais baratas – teve uma ideia simples: colocar uma placa na frente do carro, definir uma rota e carregar mais de um passageiro. A primeira viagem oficial do chamado “táxi coletivo”. Foi no dia 24 de setembro de 1928, entre Lakarra e a Plaza Primera Junta, por 10 cêntimos.
Em 1932, a Câmara Municipal regulamentou o serviço: Ele habilitou as filas, numerou-as de 1 a 69 e definiu as dimensões e o número de assentos. Depois começaram a decorar os ônibus com fileteados de Buenos Aires, o que os tornava inconfundíveis. Com o tempo, seu tamanho cresceu à medida que o chassi evoluía A Mercedes Benz monopolizou o mercado. Os modelos com motor dianteiro deram lugar aos motores dianteiros modernos e posteriormente para veículos de piso rebaixado e veículos articulados com fole central. Hoje eles circulam de perto 400 linhas somente na Região Metropolitana de Buenos Aires. Quase um século depois daquela primeira viagem, o ônibus continua sendo o meio de transporte preferido dos argentinos. E alguns destes veículos dos anos 60, 70 e 80 ainda existem. Restaurado, cuidado, com a mecânica original intacta.
O homem decidiu recuperá-los
Fernando Goldschmidt tem 55 anos, cresceu perto de carros e resgata veículos colecionáveis há mais de três décadas. Sua empresa se chama Hupmobile, que, assim como seu carro-chefe, foi fabricada por uma marca americana que fechou suas portas em 1941.— e a partir desse nome desconhecido construiu um negócio tão único quanto os veículos que o compõem: carros dos anos 30, limusines e ônibus dos anos 60, 70 e 80, que hoje são alugados para casamentos, produções audiovisuais e viagens turísticas.
A paixão levou a nostalgia a criar um negócio no ar. Ele estava aprendendo ao longo do caminho. “No ensino médio fui para um instituto industrial onde me formei como Técnico Automotivo. Depois comecei Engenharia, mas percebi que não era a minha praia, então estudei Marketing, que achei que seria o mais útil para o meu projeto”, explica Goldschmidt.

A história começa em uma agência de usados em Villa Devoto, onde seu pai vendia veículos em muito bom estado e Fernando, desde pequeno, o ajudava a inspecionar cada unidade. Aos 18 anos comprou um Fiat 600 modelo 1966, que mal funcionava, e começou a levá-lo para exposições em Vélez e La Rural. Lá, entre os modelos da década de 30, teve a ideia que mudaria sua vida: vender o carro, comprar um carro velho e alugá-lo para o casamento.
Ele passou um ano olhando para um Ford A que seu pai sempre descartava. Até que um dia, passeando com um amigo, viu o Hupmobile na agência Mario Amorosi. Era um pouco maior, de uma marca que eu nunca tinha ouvido falar e adorei. Seu pai olhou para ele. A mãe foi olhar com “olhos de mulher” para avaliar se as noivas gostaram ou não. “Como tudo foi aprovado, meu pai me emprestou dinheiro e eu comprei um Hupmobile. Imediatamente coloquei o 600 à venda e com isso devolvi o dinheiro. Tive que colocar o carro no nome do meu pai, porque eu tinha 20 anos e, na época, a maior idade para registrar um veículo era 21”, conta Fernando.
Em 10 de agosto de 1991, levou sua primeira noiva para a cerimônia de casamento em uma igreja de Buenos Aires. Demorou dez anos para conseguir um emprego de tempo integral, mas nunca duvidou que o negócio pudesse dar certo: “Vi que todo mundo era fascinado por carros”, diz.

‘Eu entrei nisso quando era criança!’
Hoje a frota vai muito além do carro que lhe deu nome. Fernando estava formando uma rede de proprietários de veículos colecionadores que aderiram aos eventos: cada um dirige seu veículo porque o conhece melhor e cuida dele.
Você encontra proprietários de veículos antigos em shows, em casamentos, na rua. Ele se aproxima, se apresenta e deixa seu cartão. Muitos aceitam. Quando um cliente pede um modelo que não tem, ele inicia o que chama de “desafio”: sair para encontrá-lo.. Mario Amorosi, que vendeu a Hupmobile há 35 anos, agora faz parte dessa rede.

Ao longo dos anos, pôde conhecer muitas pessoas e artistas famosos, algo que Fernando nunca imaginou ao iniciar o negócio. Filmando Assim sou, Tita de Buenos AiresO ator Mario Pasik prometeu a ele que seu nome estaria no filme. Em videoclipe com León Gieco, ele acabou compartilhando um churrasco do meio-dia na mesma mesa. “Graças ao meu trabalho, posso estar em lugares e situações que de outra forma seriam impossíveis”, diz ele.

Aita ainda está na oficina Villa Devoto, onde guardam alguns veículos. É ele quem resolve a mecânica inesperada: “Ele é como o MacGyver”, diz Fernando. Karina, sua esposa há 26 anos, o ajuda a organizar passeios com turistas, onde às vezes se formam longas filas de carros na entrada dos hotéis.

De todos os veículos da frota, os ônibus são os que mais param as pessoas na calçada. Seus donos costumam guardá-los para lembrar dos pais ou avós que eram motoristas ou trabalhavam nessas linhas. São unidades restauradas das décadas de 60, 70 e 80 com mecânica original, bilheteria com rolos de cartas, sacolas e filé de Buenos Aires enfeitando-as. “O público fica fascinado ao vê-los”, diz Fernando. “O comentário sempre aparece: ‘Eu entrei nisso quando era criança!’ ou ‘Eu tinha um parente que dirigia’. “Todo mundo quer tirar uma foto.” Algo que se repete quando se comemora a Calesita, como nesta quinta-feira, 18 de junho. “Nossas unidades vão de um restaurante a outro para buscar as pessoas que vão comer.
“O motorista tinha que fazer o troco, receber a passagem e dar o troco, tudo ao mesmo tempo”
Gerenciá-los, explica Fernando, era uma arte difícil de imaginar hoje: “O motorista tinha que fazer as alterações, retirar a passagem e dar o troco, tudo ao mesmo tempo. Não eram automáticos”. Um relatório de 1989 da Universidade de Buenos Aires e do sindicato dos motoristas revelou esta 40% dos motoristas estavam em tratamento de distúrbios neuropsiquiátricos. A multitarefa de veículos cada vez maiores teve um custo real.
Pegue o papel e olhe quase involuntariamente para o número. Observe que infelizmente não é capicúa, traz boa sorte. Faça o mesmo se um inspetor se aproximar para retirar a multa. E o eterno boato virou mito: “Se você juntar vários, depois de um tempo, eles vão te dar uma bola de futebol”.
Em 1991 a carga do navio foi retirada. Os grupos foram crescendo, modernizando-se, perdendo aquela escala humana. Mas algumas unidades permaneceram ao longo do tempo, cuidadas por quem sabe o que possuem. Algo se perdeu com essa mudança. Não apenas o cartão.

Fernando diz que o segredo é trabalhar de forma consistente e correta. E o que ele mais gosta é quando liga para um cliente para saber como foi tudo e manifesta sua satisfação.



