Se hoje existe um obstáculo à formação, não é tanto a falta de informação, mas muito pelo contrário. Nunca antes tantos cursos, newsletters, podcasts, vídeos, os papéise ao mesmo tempo formar especialistas existentes em diferentes aspectos e sob diferentes ângulos. O problema é que o conhecimento circula fragmentado entre múltiplas plataformas e formatos, criando um sentimento cada vez mais comum entre profissionais, empresários e gestores, de quererem incluir toda a aprendizagem disponível mas “sem saber por onde começar”.
“A forma como os profissionais são formados mudou muito nos últimos anos na Argentina e no mundo, porque a informação está mais facilmente acessível. “O tempo tornou-se um recurso fundamental na escolha de como e onde treinar”explica Manuela Cado, responsável pela Atração de Talentos da Ceta Capital Humano, acrescentando que as pesquisas tornaram-se mais específicas em termos da necessidade de informação bem escolhida, desenvolvida por especialistas e adaptada às reais necessidades de trabalho.
A sensação é que a sobrecarga de informação começa, portanto, a criar um efeito paradoxal: quanto mais acesso ao conhecimento, mais difícil é priorizar, construir critérios, aprofundar e focar.
Diante deste cenário, diferentes ambientes curatoriais para formação estão emergindo cada vez mais: espaços, comunidades, plataformas, especialistas e formatos que organizam, sintetizam e selecionam informações para torná-las mais acionáveis e digeríveis. Não se trata mais apenas de adquirir conhecimento, trata-se de encontrar intermediários confiáveis, ou seja, casos em que alguém fez o trabalho anterior de seleção, interpretação e ordem em meio ao caos da informação.
“Mesmo diante da sobrecarga de informações, a síntese ocupou o centro das atenções”, diz Cado. Se é importante que o talento esteja atualizado com as mudanças que o mercado de trabalho apresenta, ter acesso a conteúdos claros, organizados e concisos é uma vantagem. “Os profissionais priorizam conteúdos dinâmicos, aplicáveis à sua rotina de trabalho e úteis para a tomada de decisões”, destacou.
Procurando por ordem
A necessidade de encontrar casos de informação cuidadosa e confiável se estende a todas as áreas, campos e indústrias. Na área da saúde, por exemplo, o conhecimento deixou de seguir um caminho relativamente ordenado (palestras, publicações, espaços acadêmicos) para ser disperso em diversos canais, como newsletters, redes sociais, podcasts, vídeos curtos ou comunidades entre colegas. “Isso abriu oportunidades de aprendizagem, mas também dificultou a gestão”, afirma Gastón Valverde Lyons, CEO da IntraMed, comunidade que lançou a primeira rede social da América Latina destinada a profissionais do setor depois de quase 30 anos sendo referência em formação e conteúdo de saúde.
Valverde Lyons afirma que neste contexto de caos informacional, cada profissional acaba construindo um sistema de atualização de acordo com seu tempo, sua especialidade e suas necessidades, mas com um custo: aparecem ruídos, sobrecarga e certa dificuldade para traduzir informações em decisões específicas. Na verdade, num inquérito a mais de 2.700 profissionais de saúde realizado pela própria rede, mais de 70% identificaram a fragmentação da fonte como uma das suas principais frustrações e quase 7 em cada 10 expressaram a necessidade de ferramentas que ajudem a organizar e filtrar conteúdos relevantes. “O que começou a ficar claro é que o valor não está só na aquisição da informação, mas na forma como ela é organizada, validada e se torna útil para a prática diária, esse é o nosso objetivo”, explicou.
Procurando outros ângulos de formação, Emilia Montiglio lidera o “Coach in books”, uma iniciativa que quer incentivar as pessoas a lerem livros para trabalharem no seu desenvolvimento profissional. Montiglio acredita que muitas pessoas estão “perdidas” no mar de informações e saturadas de coisas que “deveriam saber”, consumindo superficialmente o que as redes têm a oferecer. “Isso é automático e sem realmente aprender nada. Quando entendemos que precisamos de algo mais, quando queremos ir mais fundo, ficamos perdidos. E nesse contexto, os ambientes que explicam o propósito dessas informações, nos ajudam a pensar e nos levam mais longe são muito valiosos, nos mostram onde devemos focar.”
A proposta deles é um clube de leitura mensal onde escolhem um livro para abordar um tema com guias de leitura adicionais. O clube possui uma comunidade que conversa e troca ideias e projeta laboratórios para trabalhar temas específicos como liderança (atualmente estão trabalhando em uma biografia de Lionel Scaloni escrita por Diego Borinsky). “Nesses sites lemos biografias e trabalhamos a teoria, com curadoria e trazida para algo aplicável, o conteúdo tem um valor duplo. Procuro trazer livros com curadoria para refletir, não só para aprender, mas também para formar pessoas para manter a atenção, o pensamento crítico e a empatia”, reflete.
Newsletters: um retorno triunfante
Um dos fenómenos mais representativos desta nova lógica de gestão é o crescimento da plataforma Substack. O que começou como uma plataforma de newsletter independente tornou-se um espaço onde especialistas, ativistas e analistas selecionam, interpretam e organizam informações para comunidades específicas. A ascensão dos boletins informativos (e seus altos e baixos ao longo de sua história) também reflete uma mudança na forma como as pessoas se educam e se mantêm atualizadas. Cada vez mais profissionais constroem seu aprendizado diário a partir das opiniões de especialistas que recebem diretamente em seus e-mails: Análise de inteligência artificial, negócios, tecnologia, marketing ou economia que já está filtrada, sintetizada e entregue em contexto.
“O algoritmo dá o que você quer ver. Um bom curador dá o que pensar”, afirma Carina Onorato, estrategista de marca pessoal, mentora e autora de “Marca pessoal, os 7 arquétipos”. Conforme explica, o aprendizado de hoje envolve uma mente curatorial, que é basicamente a capacidade de ignorar. Dizer “isto não é” com a mesma precisão que dizer “isto é”, o que exige uma perspetiva que não está condicionada pela lógica da viralidade ou pela pressão constante para manter tudo atualizado, que é basicamente uma outra forma de não manter nada atualizado”, afirmou.
A nível local, a Substack está a tornar-se um ponto de encontro de formadores, mentores e especialistas que se reúnem com um público ávido por aprender sobre os mais diversos temas. Enrique Avogadro é um exemplo disso. Dirige o Pulmón Creativo, um laboratório de inovação que conecta cultura, criatividade e as indústrias culturais com o mundo corporativo e o mundo público. Todas as semanas, no seu Substack, ele oferece ferramentas práticas e estratégias criativas para transformar organizações, cidades e empresas através das indústrias culturais e da economia criativa. Por outro lado, Avogadro lidera o Baikal Creativo, dentro do ecossistema do Instituto Baikal, outra referência clara onde a figura dos mentores e da curadoria é fundamental para a aprendizagem.
No caso do Onorato, o Substack funciona como parte do ecossistema de treinamento. A cada semana, sua newsletter traz aspectos diferentes para quem precisa aprender a administrar sua marca pessoal e traduzir a experiência e a carreira dos profissionais em um relato organizado e organizado de quem eles são. “Minha newsletter traz argumentos que levam tempo para serem desenvolvidos e perguntas que não têm respostas claras. Escrevo para pessoas que querem pensar com outras, não para quem quer consumir”, comenta.
Talvez um dos paradoxos mais interessantes desta época seja que Com acesso ilimitado ao conhecimento, o diferencial está na capacidade humana de selecionar e filtrar. À medida que a inteligência artificial, os algoritmos e as plataformas produzem informação a velocidades sem precedentes, o valor daqueles que conseguem fornecer contexto, julgamento e orientação cresce ao mesmo tempo.





