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Durante muitos anos, Mariano Zegarelli (56) passou o Dia dos Pais em congressos médicos, fora da Argentina e longe dos filhos, Franco e Valentino. Não porque essa fosse a sua profissão, pois fundou uma empresa pioneira na fabricação de merchandising e produtos promocionais (Zecat). O motivo das viagens estava no diagnóstico do filho de Valentino antes de completar um ano, depois que a mãe de Mariano e Val consultou vários profissionais, ficando cada vez mais preocupada ao ver que o filho não conseguia sentar. Testes, consultas, análises, visitas. Até encontrarem o diagnóstico. “Atrofia Muscular Espinhal (SMA) tipo II”, foram informados. E era um balde de água fria. Era 2005 e os tratamentos ainda estavam engatinhando na Argentina; a informação é escassa.
“Descobri que havia uma associação de famílias com atrofia muscular. Começaram a me contar sobre a doença e foi um choque. É progressiva, ‘mata’ os neurônios motores, você perde força em vários músculos, atinge as pernas, as costas e depois todo o pescoço e a parte motora, e progride muito rápido. Eu já estava viajando muito a trabalho, então meu médico foi a uma convenção para investigar. Nos Estados Unidos, ele sugeriu que um médico especialista fosse para Utah e entramos em um centro especializado. Na mesma época, Vi que a França teve um desenvolvimento melhor. Então o Valentino, em um ano e meio, já fazia quatro viagens para Utah e quatro para a França, era um esforço muito grande sem saber o que iria acontecer.
Seguiram-se mais viagens e máquinas importadas, como plataformas vibratórias e exoesqueletos. Também fizeram a cobertura da piscina de Santa Bárbara e depois construíram uma academia: antes de completar quatro anos, Valentino já fazia quatro horas de fisioterapia por dia.
Já Mariano trabalhava 12 horas por dia em sua empresa, ajudava o filho na terapia, pesquisava na internet e viajava diversas vezes ao ano. E o que estava acontecendo com Franco? Como você garantiu que sua entrega não fosse todo o resto? “Tive muita sorte, consegui me cercar de gente muito boa”, reflete Mariano. “Lembro que quando Valen tinha quatro anos e Franco seis, na Califórnia, um homem me viu no hospital com Franco, veio até mim e disse: ‘Sou irmão de um menino com deficiência e meus pais cometeram um erro ao dedicar todo o tempo a ele. Não faça o mesmo’. Assim, literalmente, sem anestesia. Ficou claro para mim.”
Mais tarde, uma garota que estava ajudando Valentino na terapia acenou outra bandeira vermelha diante de seus olhos. “Naquela época eu trabalhava 12 ou 14 horas por dia e procurava terapia, e ao mesmo tempo a Lorena, mãe dos meninos, a gente se revezava para cuidar do Valen à noite, porque ele acordou para voltar e você tinha que ajudar. Muitas vezes me senti assim responsável, indiretamente, enfim, consegui delegar, as obrigações não me davam descanso mas tudo era muito caro e também: viagens, remédios, cadeira de rodas.
Durante esse processo, Franco tornou-se um companheiro incondicional, admite Mariano. “Criamos uma dinâmica enquanto estivemos aqui, levei o Franco para jogar rugby e o Valen, que também veio, viu: ele era pequeno, estava com uma cadeira, era o nosso momento”.
Ao chegar em 2010, em outra conferência, Mariano viu algo que lhe chamou a atenção: uma bola gigante e um esporte que ele não conhecia. Power Soccer, chamava-se: futebol adaptado em cadeiras de rodas elétricas.

“Tive dois sentimentos ali. O primeiro foi alegria e o segundo foi raiva: ‘Como não vi isso antes?’ Quando me disseram que já tinha havido uma Copa do Mundo no Japão em 2007, que haveria outra na França em 2011, que havia 300 jogadores nos Estados Unidos, não acreditei. Então eu disse que vou levá-lo para a Argentina e começar um campeonato”.

Em menos de um mês, ele criou uma fundação para destruir tudo: Powerchair Football Argentina. Isso lhe trouxe a maior felicidade, diz ela, um fascínio instantâneo pelo filho mais novo. “Ele apenas repetiu duas palavras: ‘Pai, me chute’. Não conseguimos tirá-lo da bola.” Valentino deixou de ser espectador para se tornar protagonista.

Entretanto, o Powerchair foi-se fortalecendo: “Depois de um ano já tínhamos quatro clubes e uma liga”, opinou Mariano. Hoje, essa liga conta com 16 times em todo o país e mais de 170 jogadores. E aos 21 anos, Valentino Zegarelli é o capitão da Seleção Argentina de Futebol Powerchair.

“Valen tem duas Copas do Mundo, sete Copas Sul-Americanas, seis Libertadores.

Do outro lado da história, seus filhos lhe dão crédito. De um lado está Franco, testemunha e companheiro. “Meu pai tem uma frase tatuada: ‘O passo extra’. Meu irmão e eu temos a mesma tatuagem, que significa: dê sempre um pouco mais. Vai desde a carreira dele até o que ele fez com meu irmão e seu diagnóstico: ele nunca ficou parado”, diz ela.

Valentino resume: “A primeira vez não pude acreditar: jogar futebol para mim foi a realização de um sonho. O meu velho trabalhou muito. Hoje é uma paixão que partilhamos”. Ainda mais este ano, porque a Copa do Mundo de Futebol Powerchair será realizada na Argentina, no Parque Olímpico da cidade de Buenos Aires, de 15 a 25 de outubro.
Mariano confirmou que alcançou o primeiro objetivo. “Abri o caminho para o Vale; agora estou aprendendo a me dar liberdade. O fato de ele ter ido passar seis meses para a Inglaterra para morar sozinho, para jogar na melhor liga do mundo, é um exemplo disso”, diz ele, e admite rindo: “Ainda visitei cinco vezes”.





