Ele é filósofo, escreveu um livro sobre o ego e insiste que a autoestima não tem nada a ver com o amor próprio.

Criada em um lar de psicanalistas, com uma irmã atriz e outra que herdou a carreira dos pais, Florence Abadi foi construída como filósofa. Desde a infância, ele lembra o amor de sua mãe pelos estudos de arte, o amor de seu pai pelo cinema e pelo teatro. Além de sua ideia teimosa de ter magia. Quando menina, ela disse que queria ser escritora e pensava que faria literatura. Mas no quarto ano sua mãe o entregou O mundo de Sofiado norueguês Jostein Garder e o mundo virou de cabeça para baixo.

“Foi uma aposta cega escrever ‘filosofia’ no papel em que escolhi minha carreira”, lembra. Eu realmente não sabia do que se tratava, mas não tinha dúvidas. Eu não sabia o que faria depois da formatura até aprender sobre concursos de ensino, grupos de pesquisa e profissão. Mas ele sempre teve experiência literária de perto. Na verdade, acabou de lançar Nargiz: Ego na Era da ImagemPor V&R, um ensaio que examina como a cultura moderna transformou a visão narcisista em um modo de vida.

– Por que você acha que a interpretação mais comum de Narciso como símbolo de narcisismo excessivo é errada ou insuficiente?

– Para mim, narcisismo é a necessidade de ser amado por outra pessoa, com acréscimo. a suposição de que o outro me ama com a condição de que eu seja alguma coisa, que cumpra um certo ideal. Em outras palavras, o narcisismo é aquilo que há em nós que precisa ser amado, mas não confiamos que seja suficiente ser assim; acredita que devemos trabalhar para sermos amados. No mito, Narciso fica fascinado por uma imagem que vê em uma fonte, a princípio nem sabe que é sua, e em algumas versões ele se joga na água e se afoga, dando vida à imagem, ou morre por não conseguir se separar. O mecanismo narcisista, então, não consiste em ficar satisfeito ou ser egoísta, colocando-se em primeiro lugar. Consiste em: sacrificar a vida para preservar a imagem pela qual acreditamos ser amados. Para isso, em adiar as necessidades do próprio corpo. Se o egoísta se coloca em primeiro lugar, o narcisista se coloca em segundo lugar. Se o egoísta irrita a outra pessoa, o narcisista a agrada. Não é verdade que o outro não exista para o narcisista. Pelo contrário, quem desaparece, como mostra o mito, é o próprio narcisista, sacrificado pelo que pensa que a outra pessoa deseja, pelas exigências que impõe ao seu amor. Agora que esse termo é usado para se referir a uma pessoa psicótica e manipuladora, minha leitura é completamente diferente.

– Com essa leitura, que ressonâncias você vê na vida moderna dessa ideia, cruzada com redes sociais e imagens?

– Muitos. O mito de Narciso parece extremamente relevante neste contexto. Se o narcisismo, como penso, consiste em colocar a imagem antes do corpo e da vida, dando tudo à imagem, porque acreditamos que somos amados através dela, é muito óbvio: Nas redes sociais, há uma tendência a colocar a existência a serviço do servido, bem como a ocultar a materialidade do corpo. Além disso, a fragilidade mental de muitas pessoas tem uma enorme sobreposição com a exposição excessiva permitida pelas redes. A exposição não só revela esta fragilidade, mas também a enfatiza, entrando plenamente na lógica do ser para o olhar do outro, que também é bucha de canhão para o outro.

– Você menciona que amor próprio não tem a ver com autoestima, mas sim com benevolência para com o próprio fracasso. Como isso se aplica à vida cotidiana?

– Sim, é assim que eu defino ternura. Sentimento pelo outro. Eu acho que talvez amar a si mesmo significa perdoar a si mesmo aceite-nos na imperfeição que somos. É não ter uma opinião muito elevada sobre si mesmo. Como isso se aplica… Não sei, agradeço que comece pelo fato de que não é o que fazemos na maior parte do tempo. Temos a tendência de repreender e nos sentir humilhados por não cumprir certos ideais aos quais damos muita importância. Apesar de nossa arrogância habitual ou do fato de que de vez em quando nos organizamos em uma festa egoísta, há pouco para amar.

– Você diz que o desejo é cruel e o amor é compassivo. Como essas duas forças coexistem nas relações humanas?

– Como podem… Já que na verdade coexistem, são duas lógicas que nos atravessam. O desejo é cruel porque rasga o véu, esconde, provoca. O amor é compassivo no sentido de que levanta os véus, respeita, permite ser. E também suporta o erro, como dissemos antes, suporta o tédio sem recorrer à morbidez. Brutal está etimologicamente relacionado com sangrento, sangrento, o prazer resultante do derramamento de sangue, tanto literal quanto figurativamente. Por outro lado, o amor piedoso priva-se desse gozo, preserva o cenário quando o desejo desce, preserva o que está extinto, o que carece de vitalidade. Dizemos que é um “manto de piedade”, algo que cobre. O desejo, quando impulsiona, transforma, move, nos expulsa do paraíso sem volta, uma vez conhecido não há mais volta. O amor preserva o estado das coisas, cuida. Para sobreviver, devemos habitar duas lógicas.

O desejo, quando curioso, transforma, movefizkes – Shutterstock

– No livro você trabalha a tensão entre o visível e o véu. O que você acha que mais assistimos?

– Acho que é muito especial. Vemos o que não podemos suportar ver ou saber. Tem gente que não sabe nada, não tolera um pouco de sinceridade. A verdade é dura, brutal (novamente essa etimologia). Não existem verdades piedosas. Há outras pessoas que toleram mais franqueza em uma área ou assunto, mas em outra desmaiam ao ver sangue. Quero dizer, é muito único onde estão os limites de cada pessoa, contra o que cada pessoa precisa se proteger. Fechamos os olhos para diferentes tipos de cenas.

– Na sua análise, qual o papel da inveja na economia do desejo?

– É o véu que o protege, que cobre aquilo que o desejo não deveria saber de si; que sua satisfação é impossível. A inveja nos diz: aquele ali, aquele ali, satisfez seu desejo, encontrou seu objeto adequado, está completamente feliz, absolutamente feliz. Um sofre por acreditar que esse outro é feliz, mas ainda precisa de quem fantasie sobre isso, porque sejamos sinceros; ninguém está tão completamente feliz. A inveja é um ódio, mas um ódio esperançoso, uma idealização que permite continuar investindo, continuar querendo, circular. A deusa ciumenta é vesga por Ovídio, ela vê mal. Ele não vê o que recebeu, por isso a inveja é sempre ingrata. É também uma paixão triste, uma sensação de que a pessoa não pode mais ter o que inveja, como se já tivesse perdido por um, se tiver o outro. A alegria de outra pessoa ricocheteia em você como uma falta.

– Como você acha que a cultura atual, tão marcada pela comparação, promove a inveja e o narcisismo?

– Acho que vivemos num universo de inveja, e isso implica uma tendência ao isolamento. Se acreditarmos que não estamos recebendo, nos consideramos fora da cadeia de transmissão, nos consideramos isolados. Estamos numa cultura de telas, de imagens, de cultura projetiva. Olhos que invejam são olhos que revelam preocupação, ansiedade, paranóia. A confiança é cega. Confiamos, beijamos, rezamos e descansamos de olhos fechados. Acho que esse é o significado mais profundo da frase O pequeno príncipe que diz que o essencial é invisível aos olhos. Não há conexão sem confiança, e a conexão é importante. Como diz uma bela canção, Words for Julia: “um homem solitário, uma mulher, levados um por um, são como pó, não são nada”.

– No seu livro você fala de curiosidade, ódio, compaixão, ternura. Você acha que estamos culturalmente mais preparados para algumas paixões do que para outras?

– Estamos em tempos difíceis, com muita espionagem e exposição, adoecimento e profanação da vida privada. Muito ódio também. Mas isso não significa que estejamos prontos. Acho que o ser humano é definido tanto pela crueldade quanto pela compaixão, somos compassivos até na nossa hipocrisia, na nossa necessidade de manter a cena, não de provocar, sem a qual não poderíamos existir. Mas agora vemos uma certa ostentação de brutalidade, talvez porque haja um grande sentimento de solidão. O Marquês de Sade, o mestre da crueldade, acreditava que estávamos sozinhos. Sem essa ideia, que é simplesmente uma mentira, não há justificação para deixar a compaixão fora das nossas vidas.

– Se você tivesse que recomendar alguns cuidados para melhorar o bem-estar emocional, quais marcos você destacaria?

– Dar crédito aos outros ajuda a reduzir a inveja. Reconhecer que você não pode desejar sem odiar provavelmente ajuda a diminuir os conflitos. O desejo é um conflito, não desejamos o que queremos, o que é conveniente ou bom para nós. Esta luta desperta o ódio, porque nos irrita que o desejo nos seja imposto desta forma, que não seja livre nem apropriado, que seja ainda mais inapropriado. Então as coisas Se eu tivesse que me dar um conselho, diria a mim mesmo para relaxar.

Analisa o narcisismo numa época em que as redes sociais são centrais para a construção do selfGentileza

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