Embora os líderes europeus tenham concordado em financiar a Ucrânia durante 2 anos, utilizar recursos russos é um grande teste

BRUXELAS (AP) – Quase quatro anos depois da guerra em grande escala da Rússia contra a Ucrânia, os líderes da União Europeia comprometeram-se a financiar as necessidades económicas e militares de Kiev durante os próximos dois anos, de uma forma ou de outra. A Ucrânia está desesperada e precisa de dinheiro já em 2026.

Numa cimeira na próxima semana, 27 líderes da UE irão considerar a possibilidade de utilizar milhares de milhões de dólares em activos russos detidos na Europa para ajudar a satisfazer as necessidades da Ucrânia, que o Fundo Monetário Internacional detém em 135 mil milhões de euros (157 mil milhões de dólares).

Tal movimento nunca foi feito antes e traz riscos. O Banco Central Europeu alertou que poderia minar a confiança na moeda euro se os europeus parecessem dispostos a confiscar as moedas de outros países. Alguns Estados-Membros também estão preocupados com o convite à retaliação por parte da Rússia.

A Bélgica, onde está localizada a maior parte dos recursos, é o principal adversário do plano. Teme-se que a Rússia contra-ataque através dos tribunais ou de formas mais nefastas. Uma série de ataques de drones perto de aeroportos e bases militares no mês passado sugeriu que o Kremlin já estava a fazer isso, mas os responsáveis ​​não foram identificados publicamente.

O presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, que presidirá a conferência em 18 de dezembro, insistiu que os líderes não deixariam a sede da UE em Bruxelas até que uma decisão fosse tomada.

Duas alternativas aguardam debate

Em Fevereiro de 2022, os líderes da UE congelaram a maior parte dos activos do banco central russo na sequência da guerra lançada por Putin. Moscou descreveu o projeto como “roubo”.

Dois planos surgiram. A primeira seria um “empréstimo de reparações” que utilizaria activos russos até que Moscovo concordasse em pagar pelas perdas da Ucrânia. Poucos pensam que o presidente russo, Vladimir Putin, concordará em pagar reparações.

O Plano B envolveria a UE a contrair empréstimos nos mercados financeiros, tal como o bloco fez para financiar um enorme plano de dívida para relançar a economia europeia após a pandemia do coronavírus.

Muitas das principais economias da Europa estão sem dinheiro e endividadas. Mas a guerra da Rússia contra a Ucrânia representa uma ameaça existencial ao bloco. Avaliações de inteligência sugerem que Putin poderá iniciar uma guerra noutro local dentro de três a cinco anos se derrotar a Ucrânia.

Os ativos criam um pote substancial de dinheiro pronto para uso potencial.

A Comissão Europeia, o braço executivo da UE, estima que 210 mil milhões (244 mil milhões de dólares) em activos congelados estão actualmente detidos na Europa. A grande maioria – cerca de 193 mil milhões de euros (225 mil milhões de dólares) no final de Setembro – está detida numa câmara de compensação financeira belga conhecida como Euroclear.

Existem também benefícios políticos. Se a UE decidir utilizar o recurso, apenas uma “maioria qualificada” de países – cerca de dois terços – necessitaria de luz verde. Os empréstimos nos mercados financeiros têm de ser apoiados por todos, o que significa que nem um único voto irá afundar a ideia.

Durante o ano passado, a Hungria bloqueou o apoio da UE à Ucrânia em quase todos os momentos. O governo da Eslováquia também está a começar a insistir. Um novo líder nacionalista de linha dura na República Checa poderia complicar a decisão.

Evitar o veto é do interesse da grande maioria dos Estados-Membros.

Detalhes de reembolso do empréstimo

Ao revelar o seu plano em 4 de dezembro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a UE cobriria dois terços das necessidades da Ucrânia para 2026 e 2027, num total de 90 mil milhões de euros (105 mil milhões de dólares). Os parceiros internacionais preencherão as lacunas.

Devido às sanções da UE sobre os ativos russos, a Euroclear acumulou saldos de caixa. Geraram juros – cerca de 3,9 mil milhões de euros (4,5 mil milhões de dólares) este ano, segundo a Euroclear – que já estão a ser utilizados para financiar um plano de empréstimos do Grupo dos Sete para a Ucrânia.

Ao abrigo do novo plano, parte do dinheiro será transferida para instrumentos de dívida da UE. A Ucrânia continuará em dívida com a UE, mas só pagará depois de as sanções do bloco serem levantadas e a Rússia concordar em pagar reparações de guerra.

A comissão insiste que não há “roubo” como alegado pela Rússia, uma vez que o direito do banco central russo de reclamar o dinheiro e as obrigações de reembolso da dívida do Euroclear permanecem intactos.

Assim que Putin pagar as reparações de guerra, a Ucrânia reembolsará a UE, a UE reembolsará o Euroclear e o Euroclear pagará ao banco central russo.

Oposição da Bélgica

É importante para a Bélgica que o plano inclua salvaguardas para garantir que os riscos sejam partilhados pelos seus parceiros. Outros países da UE garantirão o empréstimo se algo correr mal. A Alemanha já indicou que o fará.

Mas o governo belga não ficou convencido. Mesmo antes de o plano de empréstimo compensatório da comissão ser tornado público, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Maxime Prévot, disse que “inclui riscos económicos, financeiros e jurídicos internacionais”.

Prevot disse que a Bélgica – um forte apoiante da Ucrânia que forneceu ajuda militar e financeira – sente que as suas preocupações não estão a ser ouvidas pelos seus parceiros da UE.

“Não queremos antagonizar os nossos parceiros ou a Ucrânia. Queremos apenas evitar consequências potencialmente desastrosas para um Estado-membro que está a ser solicitado a mostrar solidariedade sem dar a mesma solidariedade em troca”, disse ele.

Numa entrevista à emissora pública belga RTBF na semana passada, a CEO da Euroclear, Valerie Arbein, também disse que uma acção judicial não poderia ser descartada se a UE obrigasse a câmara de compensação a entregar os seus activos russos.

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