Ele estava entediado com engenharia, era joalheiro, era terapeuta e queria responder por que o cérebro não para e causa problemas quando está tudo bem.

  • 7 os minutos leitura

A mente humana às vezes funciona como uma aba da internet que está aberta há semanas. Ele salta de hipótese em hipótese, revisa cenas imaginárias, revisita conversas que terminaram há poucos dias, ensaia respostas para debates futuros e fabrica desastres com a precisão de um diretor obsessivo. Cada pensamento estimula o próximo. Cada dúvida requer verificação adicional. A sensação de descontinuidade está longe de acabar.

Daniel Bogiaizian observa esse mecanismo há décadas. Psicóloga especializada em ansiedade, incerteza e reflexão mental, Ele construiu grande parte de sua carreira em torno de uma questão que permeia a vida contemporânea: por que a mente insiste em antecipar o perigo mesmo em períodos de aparente estabilidade. Sua carreira profissional, porém, começou longe do sofá.

Quando o cérebro não para: um dos temas em que se especializouCortesia da imprensa – Shutterstock

A psicologia surgiu após uma tentativa frustrada com as ciências exatas. “Comecei a estudar engenharia na UBA, nessa época fiquei entediado e passei mal -lembre- Ao mesmo tempo, comecei a formação e terapia pessoal com técnicas psicodramáticas”. A tradição familiar o ligou ao mundo da joalheria e, aos 22 anos, já tinha seu próprio negócio. Essa independência financeira facilitou uma virada decisiva. Começou a estudar psicologia na Universidade de Belgrano e por mais de uma década viveu duas versões de si mesmo, o joalheiro e o terapeuta.

Sua abordagem é baseada em uma ideia principal: A preocupação funciona como uma estratégia mental que visa antecipar perdas ou garantir bons resultados.. O problema surge quando esse sistema de alerta se torna persistente e consome energia, atenção e descanso. Nesta entrevista, ele explica por que a preocupação excessiva pode se tornar uma armadilha mental difícil de desligar e quais ferramentas ajudam a restaurar a calma e a clareza.

-Por que nos preocupamos mesmo quando não há nenhuma ameaça concreta diante de nós?

-A preocupação é um processo mental estratégico e o objetivo é antecipar ou evitar um resultado negativo ou garantir um resultado positivo. O alerta que aparece com a preocupação não é tão facilmente desligado, principalmente porque a preocupação relacionada à pessoa tem alcançado bons resultados. Mesmo quando não existe uma ameaça específica, você pode estar constantemente vigilante, monitorando possíveis riscos ao seu bem-estar.

-Em que ponto a preocupação, que pode ser uma ferramenta adaptativa, se torna uma situação que tira de nós energia e clareza?

-Para nos preocupar temos que estar alertas, alertas e tensos. A preocupação deixa de ser adaptativa quando se torna excessiva. Existem duas dimensões importantes: a quantidade de tempo que uma pessoa dedica a determinado conteúdo e o nível de desconforto que isso cria. Uma pessoa pode encontrar um arranhão na porta do carro e passar o dia inteiro de trabalho pensando nisso, em como as pessoas são descuidadas e nos danos que causaram. O carro continua o mesmo, mas ele terminou o dia cansado e com dor de cabeça.

-Qual a diferença entre enfrentar um problema real e ficar preso em cenários hipotéticos que só existem na nossa cabeça?

-Quando alguém se depara com um problema real, pode definir a ameaça em termos concretos e tomar ações específicas para resolvê-la. Outra coisa é passar mentalmente por diferentes cenários negativos para tentar controlar o resultado daquilo que você teme. Isso cria uma ilusão de controle: parece que você está fazendo alguma coisa, mas na realidade você é apenas um incômodo.

-Muitas pessoas acham que se pararem de se preocupar, serão descuidadas. De onde vem essa conexão entre preocupação e comprometimento?

-Existem crenças que atuam como gatilhos de preocupação. Uma delas é pensar que quem está preocupado é sério e responsável. Ignorar esta situação é então interpretado como descuido. Há também quem acredite que a preocupação os mantém preparados caso algo ruim aconteça, ou que a preocupação é uma forma de demonstrar amor: “Eu me preocupo porque te amo”.

– Como a preocupação excessiva afeta o corpo e a vida cotidiana, além do plano mental?

-A ansiedade tem uma dimensão física e uma dimensão mental. Manifesta-se por alarme físico ou sintomas de tensão, como taquicardiasensação de sufocamento, suor ou contração. A dimensão mental é uma preocupação. Sem tensão não há preocupação, e quando essa tensão é mantida por muito tempo surgem consequências concretas: cansaço, problemas de sono, ataques de pânico frequentes, contrações ou sensação constante de cansaço.

-É possível aprender a se relacionar de forma diferente com nossos pensamentos repetitivos, sem tentar controlá-los o tempo todo?

-Quanto mais tentamos controlar nossos pensamentos através da repressão – “Não quero pensar nisso” – menos chances temos de conseguir isso. O que geralmente funciona melhor é focar em tarefas significativas ou em distrações naturais, engajando-se em atividades que sejam realmente interessantes para a pessoa.

-Qual o papel da incerteza neste fenômeno? Por que é particularmente difícil para algumas pessoas?

-A intolerância à incerteza desempenha um papel importante na preocupação excessiva. Pode se manifestar como dificuldade de tolerar o cinza, impaciência, necessidade de certeza absoluta ou escrutínio constante. Muitas vezes é uma combinação de dois fatores: uma necessidade urgente de resolver tudo e uma tendência a pensar no pior cenário para se sentir preparado para um resultado adverso.

Too Worried, o último livro de BogiaizianCortesia da imprensa

-Num contexto social permeado por crises e excesso de informação, temos maior tendência a nos preocupar mais?

-As pessoas têm uma capacidade limitada de processar informações. O contexto atual, repleto de tecnologia e estímulos constantes, aumenta a incerteza em vez de reduzi-la. É um exemplo cibercondria: Busca compulsiva por informações sobre saúde na Internet, que acaba multiplicando dúvidas e alimentando um ciclo persistente de preocupação.

-Que práticas específicas ajudam a interromper o circuito de reflexão antes que ele aumente?

-O primeiro passo é reconhecer que se está entrando em um processo de reflexão. As tentativas de resolver esses pensamentos repetitivos e persistentes tendem a falhar. Também ajuda a distanciar-se do que a mente produz e de que nem todos os pensamentos têm valor ou valem a pena explorar indefinidamente.

-Como a história pessoal – infância, padrões familiares – afeta nossa tendência à preocupação?

– O lote Pessoas que cresceram em contextos estressantes ou controladores de longa duração tendem a naturalizar a preocupação e é difícil reconhecer o seu lado prejudicial. Os modelos parentais ensinam maneiras de reagir à incerteza. Embora o contrário também possa acontecer: pessoas que cresceram em ambientes descuidados desenvolvem preocupação excessiva como forma de compensar esta falta de segurança.

-Que lugar ocupa a autocompaixão no processo de acabar com a preocupação excessiva?

– A autocompaixão ajuda especialmente diante do perfeccionismo negativo e das exigências extremas. EiEnvolve reconhecer suas limitações e aceitar que ninguém pode controlar tudo.mesmo com a melhor das intenções.

-Se alguém sente que sua mente está sempre em repouso, qual seria o primeiro passo possível para começar a recuperar a paz de espírito?

A insônia é uma das consequências do pensamento excessivo e também afeta a rotina diária.Cortesia da imprensa – Shutterstock

-Menor tensão física. Ele se preocupa com o combustível da tensão. Também ajuda a ocupar a mente em atividades menos tóxicas ou improdutivas, como praticar esportes, jogar cartas ou fazer algo recreativo.. Os espaços lúdicos e não produtivos contribuem muito para sair do constante estado de cuidado.




Link da fonte

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui