Cesária Évora: a voz de Cabo Verde estabelecida antes do futebol

Desempenho de seleção incrível Cabo Verde no ano Copa do Mundo No centro da cena ele colocou um pequeno arquipélago africano que durante décadas foi um mistério para grande parte do planeta. Porém, muito antes de o futebol despertar a curiosidade global, houve uma mulher que fez do nome do seu país sinónimo de emoção, nostalgia e beleza: Cesária Évoramúsica o artista que fez o primeiro grande passaporte internacional de Cabo Verde.

Existem países que o mundo descobre como resultado de uma guerra. Outros, em consequência de uma tragédia natural. Alguns, por um milagre esportivo. Cabo Verde entrou de uma vez por todas na conversa global graças ao futebol. Sua atuação histórica na Copa do Mundo fez deste pequeno arquipélago africano, perdido no meio do Atlântico, uma das grandes revelações do torneio. De repente, milhões de pessoas olhavam um mapa para descobrir onde ficava aquela ilha vulcânica com uma população de menos de meio milhão de pessoas.

Mas para quem gosta de música, Cabo Verde já existia muito antes de se chutar a bola. Ele tinha uma voz. E essa voz foi chamada Cesária Évora. Muito antes de o futebol despertar a curiosidade do planeta, Cesária conseguiu algo muito mais difícil: transformar a identidade de um pequeno país num património emocional do mundo. Sem campanha de promoção, sem uma grande indústria cultural por trás, sem cantar em inglês e sem nunca abdicar do crioulo cabo-verdiano, conseguiu começar a ouvir o nome de Cabo Verde nos teatros mais famosos da Europa, América e Ásia.

Conhecida como a “diva dos pés descalços”, Cesária nasceu no Mindelo, na ilha de São Vicente, em 1941. Durante anos cantou em pequenos bares e discotecas da sua cidade, sem imaginar que o reconhecimento internacional viria quando já tinha mais de cinquenta anos. Sua história desafia todos os manuais de sucesso: enquanto a indústria optou pela juventude e pelo imediatismo, ele conquistou o mundo. com música lenta e intimista profundamente enraizada na tradição do seu povo.

Cesária Évora num mural em Mindelo, Cabo VerdePATRICK MEINHARDT-AFP

O seu repertório foi dominado pela morna, o género mais representativo de Cabo Verde. Música cruzada saudadeaquela melancolia partilhada com o universo lusófono, que muitos associam ao fado português, embora tenha uma identidade própria moldada pelo encontro entre as culturas africana, portuguesa e brasileira. Cada música era um postal do arquipélago: o oceano, os portos, a emigração, os amores impossíveis e a saudade de quem teve que sair das ilhas.

Sua imagem descalça acabou sendo muito mais que uma marca artística. Representava o seu orgulho pelas suas origens e a sua determinação em nunca esquecer o povo humilde de onde veio. Foi esta autenticidade que o público adorou no século XX.

Cesária Évora, uma voz emblemática da música de raiz folclórica

Cesária fez por Cabo Verde o que Bob Marley fez pela Jamaica ou Astor Piazzolla pelo tango argentino.: fez de uma expressão cultural local uma linguagem universal. Graças a ele, o mundo começou a pronunciar o nome daquela pequena cidade muito antes de aparecer nos títulos esportivos.

Hoje são os jogadores de futebol que escrevem uma nova página nessa história. Os jornalistas mencionam Cabo Verde, os analistas destacam o seu crescimento e os adeptos descobrem uma bandeira até recentemente desconhecida. A Copa do Mundo abriu uma enorme janela para um país que viveu quase em silêncio durante séculos, entre a África, a Europa e o Atlântico.

Mas por trás da criação deste desporto existe uma memória que merece ser recuperada. Porque havia músicas antes dos gols. Havia teatros silenciosos antes do estádio ficar cheio. Antes de o planeta elogiar a bravura de dezenas de jogadores de futebol, houve uma mulher que, sozinha, fez com que milhões de pessoas se apaixonassem por um país sem nunca o terem visitado. Talvez esta seja a mais bela imagem deixada por este inesperado protagonismo global de Cabo Verde. O futebol deu-lhe a visibilidade que ainda lhe faltava. Mas a sua alma já tinha atravessado os oceanos muitos anos antes, descalça, enrolada num cobertor e acompanhada por uma voz inconfundível. Veio uma vez a Buenos Aires, em 1999, para tocar no La Trastienda.

Embora hoje o mundo aplauda a equipa de Cabo Verde, também – embora muitos não saibam – está a ouvir o eco da mulher que tornou o seu país famoso quando quase ninguém o conseguia encontrar num mapa. A primeira grande vitória internacional de Cabo Verde não foi celebrada num estádio. Foi cantado.




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