O sistema de votação de alta tecnologia do Brasil está perdendo a confiança dos eleitores

O Brasil é o único país do mundo onde todas as eleições são totalmente eletrônicas. Para comemorar o 30º aniversário do sistema, em maio, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do país, que supervisiona as eleições gerais, lançou um mascote, Paley, uma máquina de votação de aparência amigável com grandes olhos redondos. No entanto, o amplo alcance do público e do judiciário não reverteu o declínio da confiança no sistema de votação do Brasil nos últimos anos.

Apenas 32% de confiança e 61% de suspeita de fraude até 2024 (X/jnascim)

Em 2009, 45 por cento dos entrevistados brasileiros disseram à empresa de pesquisas Latinobarómetro que acreditavam que as eleições foram justas, enquanto 47 por cento disseram que foram fraudulentas. Em 2024, apenas 32% confiam e 61% suspeitam de fraude (ver gráfico). As opiniões sobre as máquinas de votação também mudaram significativamente. Numa pesquisa recente, 43% dos entrevistados disseram que as máquinas de votação não são confiáveis. Num inquérito de 2022 realizado pela mesma empresa, apenas 22% afirmaram não confiar nas máquinas. Foi em 2022 que Jair Bolsonaro, um populista de direita que perdeu a campanha para a reeleição como presidente, inundou a Internet com mentiras sobre a máquina. Estas afirmações ajudaram a inspirar um golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, quando milhares de seus apoiantes atacaram edifícios governamentais. Bolsonaro está cumprindo pena de prisão por tentar fraudar os resultados eleitorais.

Foi apenas a manifestação mais básica da erosão da confiança nos sistemas de votação em todo o mundo. Seu filho, Flávio, senador, concorre à presidência nas eleições de outubro. Em Março, na Conferência de Acção Política Conservadora, um encontro de direita realizado este ano em Dallas, Flavio afirmou que poderia ganhar as eleições se estas fossem “livres e justas”, sugerindo que quaisquer outros resultados mostrariam que não o eram. Vários outros participantes que apoiam Trump também espalharam rumores falsos sobre máquinas de votação duvidosas. Embora a campanha de Flávio tenha sofrido recentemente depois de mensagens vazadas que o ligaram a um banqueiro corrupto, a influência de Bolsonaro permanece: uma grande parte da direita brasileira tem argumentado contra as máquinas de votação, especialmente nas redes sociais. Os candidatos divergiram nos resultados das eleições gerais de 2014, 2018 e 2022. Se os resultados forem estreitos este ano, Hari pode chorar mais uma vez.

A desconfiança no sistema eleitoral é motivada pela polarização e pela desinformação online, e não por fraude comprovada. Mas a sua natureza técnica facilita a difusão de informações erradas sobre o sistema. Quando os eleitores entram na cabine de votação, a máquina os reconhece com suas impressões digitais. Em seguida, eles inserem o ID de dois dígitos do candidato escolhido e confirmam sua escolha. Os votos não são registrados em ordem cronológica, mas sim aleatoriamente, para proteger a privacidade da votação. Quando as urnas encerram, às 17 horas, um apuramento é impresso e pendurado na assembleia de voto para o público ver, o único registo em papel da votação.

Um mesário então remove o cartão de memória conectado a cada máquina e envia um registro eletrônico criptografado da contagem para a sede do TSE por meio de uma rede virtual privada. O software que faz isso é escrito pelo próprio TSE e utiliza o mesmo protocolo de segurança das transações bancárias. Cada máquina possui uma assinatura digital única que utiliza para assinar os registros eletrônicos que são transmitidos ao TSE. Caso a assinatura de um lote de votos não corresponda ao registro do TSE, seu acesso à rede será bloqueado. As máquinas deliberadamente não possuem o hardware necessário para se conectar à Internet ou ao próprio Bluetooth. A pilha de memória também carrega uma assinatura e a máquina descartará tudo o que não corresponder.

“Mesmo que você tenha um ou alguns atores de má-fé na TSA, existem muitas camadas de segurança para que eles afetem completamente o sistema, ou a contagem de votos”, diz Carlos Alberto da Silva, professor de criptografia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. “Ao longo de três décadas, nunca houve qualquer evidência de fraude eleitoral no sistema de votação do Brasil”, diz Carmen Lúcia, recentemente presidente do TSE. “Esse fato fala por si.”

Os brasileiros conhecem os resultados das eleições quatro horas após o fechamento das urnas. Os eleitores podem verificar os resultados verificando se as apurações nas seções eleitorais correspondem aos registros eletrônicos de eleitores, publicados no site do TSE. O Escritório Federal de Auditoria independente também coleta uma grande amostra de registros em papel e os compara com registros eletrônicos. O vencedor é então confirmado.

O Brasil optou pela eletrônica para combater a fraude eleitoral. Muitos eleitores analfabetos preenchem os seus boletins de voto antes da chegada dos políticos. As listas de eleitores geralmente incluem pessoas mortas ou inexistentes. A situação chegou ao auge em 1994, durante uma eleição aparentemente fraudada no Rio de Janeiro. Centenas de cédulas foram escritas com a mesma caligrafia. Após essa eleição, a TSA reuniu um grupo de engenheiros e juristas para encontrar uma solução. Em 2000, a votação era totalmente eletrônica.

Para aumentar a confiança no sistema, o TSE realiza hackathons em sua sede antes das eleições. Qualquer cidadão acima de 18 anos pode participar, com despesas incluídas. Os participantes têm acesso ao hardware e software das urnas, podendo tentar compreendê-las. Se for encontrada uma vulnerabilidade, o TSE a corrige e convida os participantes a voltarem para repetir os ataques. Ele permite que o código-fonte das urnas eletrônicas seja fiscalizado por universidades, militares, polícia federal, organizações da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil, e partidos políticos.

Marcos Roberto dos Santos, professor de segurança cibernética da Atitus, instituição de ensino privada do Rio Grande do Sul, já participou quatro vezes da prova de segurança pública. “Se você tem dúvidas ou problemas com o sistema, está a seu favor”, afirma. “Então vá tentar você mesmo.” A tentativa de Bolsonaro de desacreditar o sistema em 2022 reflete mais interesse próprio do que preocupações de segurança. Após a derrota, seu partido entrou com uma ação para anular o resultado do segundo turno, mas não do primeiro turno, em que conquistou o maior número de cadeiras no Congresso.

Um tribunal eleitoral dominante

No entanto, a criptografia aberta e avançada tem as suas limitações. A confiança nos tribunais brasileiros está diminuindo. Na maioria dos países, as autoridades administrativas realizam eleições, enquanto os tribunais tentam separadamente fazer cumprir as leis eleitorais. Funcionários do TSE organizam eleições gerais, fornecem máquinas de votação, escrevem software, verificam resultados, julgam disputas e combatem a desinformação. Sua composição se sobrepõe ao Supremo Tribunal Federal, que é visto com desconfiança por muitos brasileiros. Alexander de Moraes, um juiz arrogante da Suprema Corte, supervisionou o julgamento do golpe de Bolsonaro. Durante sua gestão no TSE, ele impôs multas a quem desfigurasse as urnas e proibiu Bolsonaro de ocupar cargos públicos.

O TSE “tem muitas funções que podem criar um conflito de interesses”, diz Diego Arinha, especialista brasileiro em segurança cibernética da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. O país tornou-se tão polarizado que “qualquer crítico bem-intencionado do sistema é confundido com o Bolsonaroismo, mesmo que a crítica seja técnica”.

Estes críticos bem-intencionados argumentam que equipar as máquinas com recibos individuais em papel, e não apenas com a contagem das assembleias de voto, melhoraria a auditabilidade do sistema. É semelhante ao que a Índia faz. O Congresso brasileiro tem repetidamente pedido impressões para complementar os registros eletrônicos, mas o TSE decidiu contra isso. Em 2002 fez um piloto onde impressoras foram conectadas às máquinas. Mas as impressoras muitas vezes emperram, exigindo intervenção humana para consertá-las. O TSE argumentou que tais distúrbios poderiam atrasar a contagem. Alega-se também que os registos individuais podem minar o sigilo do voto, porque os grupos ou os anciãos locais podem então pedir aos eleitores provas do seu voto. “Na experiência do Brasil, o recebimento de documentos individuais abriu a porta para a coerção e o controle sobre os eleitores, o que prejudica a legitimidade do processo”, diz Lúcia.

No dia 12 de maio, Cassio Nunes Márquez, indicado por Bolsonaro no STF, assumiu o comando do TSE. Dos outros dois juízes do Supremo Tribunal na magistratura, um também é indicado por Bolsonaro e o outro se tornou próximo de Flávio nos últimos anos. Onde Morris foi acusado de exagero, Nunes-Márquez disse que desta vez o TSE interviria tanto quanto possível. Isso pode tranquilizar os Bolsonaros – por enquanto.

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