Os promotores federais no Brasil celebraram uma decisão judicial que determina a preservação de Fordlândia, uma cidade construída em 1928 pelo industrial norte-americano Henry Ford no coração da floresta amazônica.
A decisão do tribunal foi o resultado de décadas de defesa, à medida que historiadores, ativistas e residentes pressionavam para que o local desmoronado fosse protegido.
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Alguns esperam que o local possa eventualmente ser restaurado e usado para ancorar a indústria do turismo local no estado do Pará, no Brasil.
Em comunicado divulgado na sexta-feira, o Ministério Público Federal classificou a decisão do tribunal como uma decisão “marco” que corrigirá a lacuna nos esforços de preservação cultural do Brasil.
“O complexo foi negligenciado durante décadas”, escreveu o escritório.
“A decisão reconhece os argumentos apresentados pelo Ministério Público Federal no caso, destacando omissões históricas do poder público.”
A decisão exige que o governo federal, o estado do Pará, o governo local de Aveiro e o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e de Arte (IPHAN) trabalhem juntos para proteger o local.
“Todos devem agir juntos para salvar a propriedade, que está em grave estado de degradação”, disse a promotoria.
Desde a década de 1990, é realizado um processo administrativo para determinar se a Fordlândia deve ser preservada.
Mas os promotores – nos níveis federal e estadual – insistiram que a “inércia” do governo em relação ao local “colocou em risco sua conservação”.
Num comunicado divulgado na sexta-feira, as autoridades federais argumentaram que o significado histórico da Fordlândia é claro.
“A Fordlândia é um capítulo importante na história do Brasil e da indústria mundial”, escreveu. “O projeto representou uma tentativa americana de quebrar o monopólio britânico da borracha, trazendo infraestrutura avançada – como hospitais, água encanada, eletricidade e cinema – para o coração da Amazônia na década de 1920.”
A construção da Fordlândia começou em 1928, quando a Ford tentava monopolizar o mercado da produção de borracha.
Fundador da Ford Motor Company, Ford foi um dos homens mais ricos do seu tempo e investiu quase 20 milhões de dólares na nivelação das extensões da Amazónia e na construção da cidade dos seus sonhos, onde pudesse impor a sua visão de uma vida saudável e de um trabalho eficiente.
A experiência Fordlândia acabou por falhar. Os trabalhadores revoltaram-se por causa de regras estritas que regem o seu comportamento, incluindo uma dieta imposta que consiste em alimentos básicos como aveia e pêssegos enlatados. Álcool e tabaco são proibidos.
A Ford também enfrentou dificuldades, perdendo o controle de sua empresa à medida que os concorrentes da indústria automobilística começaram a dominar o mercado dos EUA.
Mas um dos principais problemas é a própria borracha. O plano de Ford de construir uma vasta fazenda para fornecer borracha para pneus à sua empresa falhou, pois a colheita sofria de fungos e pragas. Em 1945, a Fordlândia foi vendida ao governo brasileiro por meros US$ 244.200.
No entanto, nas décadas seguintes, milhares de residentes continuaram a viver em Fordlândia. Sem manutenção, porém, a infra-estrutura começou a apodrecer e a água corrente não é fiável.
Falando à Al Jazeera em 2024, os moradores relembraram como o hospital da cidade pegou fogo em 2012 e como saqueadores devastaram a cidade.
“Existe um bom sistema de saúde. Podemos ir ao hospital e receber remédios”, disse Maria Silva Santos, moradora de Raimunda, à repórter Eleonore Hughes.
Santos acrescentou que está há 30 dias sem água. “A era de ouro ficou para trás.”
A pobreza continua elevada na Amazônia brasileira. No estado densamente florestado do Pará, por exemplo, a taxa de pobreza será de 39,3% em 2023.
Num comunicado divulgado na sexta-feira, os procuradores federais enfatizaram que, de acordo com a decisão do tribunal, os residentes locais têm o direito de ver a Fordlândia restaurada.
“Esta área continua sendo um local de memória fundamental para a comunidade brasileira, que agora tem o direito legal de exigir sua restauração e preservação para as gerações futuras”, afirmaram.




