O antigo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está certo ao defender que os países europeus devem deixar de adquirir petróleo e gás originários da Rússia. Esta foi a opinião expressa por uma das figuras mais influentes da União Europeia à Sky News.
Em entrevista ao programa The World with Yalda Hakim, Kaja Kallas, vice‑presidente da Comissão Europeia e responsável pela política externa e de segurança (alto representante da UE), declarou que lhe causa “grande arrependimento” que alguns Estados-membros ainda mantenham relações comerciais energéticas com Moscovo.
A Comissão Europeia apresentou recentemente uma proposta legislativa ambiciosa: acabar com as importações russas de petróleo e gás até 1 de janeiro de 2028. A iniciativa visa romper, ao longo de décadas, a dependência energética que a Europa mantinha com a Rússia — uma dependência que se tornou insustentável após a invasão liderada por Vladimir Putin à Ucrânia.
A situação atual das importações europeias
Desde 2022, a maioria dos países europeus deixou de comprar petróleo bruto russo. Em 2023, várias nações também cortaram o fornecimento de produtos refinados russos. Contudo, a importação de petróleo cru continua em países como a Hungria e a Eslováquia.
Kallas afirmou: “Claro que Trump tem razão. Há muito que defendemos que a dependência energética da Rússia está também a financiar a guerra.” Lamentou que nem todos os Estados-membros tenham abandonado totalmente essas importações. Acrescentou que existem alternativas viáveis: “Países vizinhos já propuseram essas alternativas, portanto podemos fazê‑lo.”
Embora reconheça que Hungria e Eslováquia ainda comprem energia russa, Kallas diz que não é favorável a sancioná‑los. Em vez disso, sugere que esses países se apoiem nas alternativas que os seus vizinhos oferecem para abandonar o petróleo e o gás russos — exatamente o que Trump tem apelado.
A Eslováquia reage à pressão
O governo eslovaco resistiu à pressão internacional para cortar as compras de energia à Rússia. O seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Juraj Blanar, afirmou que a crítica à Eslováquia é hipócrita — apontando que, nos últimos 12 meses, as compras de gás natural liquefeito à Rússia por países da Europa Ocidental cresceram 30 %. Entre os países criticados por Blanar estão França, Espanha e Holanda.
Segundo ele:
“França, Espanha e Países Baixos… veem o quadro ser muito mais colorido do que preto e branco.”
Este argumento visa lembrar que a dependência energética russa não se limita apenas aos Estados do Leste Europeu, mas continua presente, ainda que em menor escala, em diversas economias ocidentais.
Trump propõe sanções energéticas condicionadas
Donald Trump disse que os EUA poderiam impor sanções energéticas agressivas contra a Rússia — mas apenas se todos os países da NATO cortarem as importações russas e implementarem medidas semelhantes.
“No momento em que todas as nações da NATO concordarem e começarem a parar de comprar petróleo da Rússia, estarei pronto para impor sanções severas contra Moscovo”, disse no seu perfil no Truth Social.
Durante a Assembleia Geral da ONU, Trump declarou:
“Se a Rússia não estiver pronta para fazer um acordo para pôr termo à guerra, os EUA estão plenamente dispostos a impor tarifas poderosas que, creio, poderão interromper o derramamento de sangue muito rapidamente.”
“Para que essas medidas sejam eficazes, as nações europeias, todos vocês reunidos aqui, terão de se unir a nós e adotar exatamente as mesmas medidas.”
Importância estratégica das receitas energéticas russas
As receitas provenientes do petróleo e do gás são a fonte mais crítica de financiamento para o Kremlin, para custear o esforço de guerra. Por isso, atacar esse motor económico virou prioridade central nas sanções ocidentais.
No entanto, especialistas alertam para um problema: medidas demasiado agressivas contra o petróleo russo podem provocar um aumento global nos preços da energia. Esse aumento poderia ferir as economias ocidentais — enfraquecer a confiança dos consumidores — e comprometer o apoio público às sanções.
Panorama global: Rússia, China, Índia e Turquia
Desde 2023, a Turquia — membro da NATO — tem figurado como o terceiro maior comprador de petróleo russo, atrás de China e Índia. Esse dado evidencia que mesmo Estados aliados mantêm laços energéticos com Moscovo.
A dependência energética europeia da Rússia sempre foi uma questão estratégica — e, com a guerra na Ucrânia, tornou-se também uma vulnerabilidade militar e política. A proposta de eliminar completamente essas importações até 2028 aponta para um esforço profundo de reestruturação energética no continente.
Consequências políticas e diplomáticas
- A posição de Kaja Kallas evidencia que há um entendimento nas altas patentes da UE de que a manutenção de relações energéticas com a Rússia é incompatível com a segurança europeia e com o princípio de solidariedade entre Estados-membros.
- Ao mesmo tempo, permitir que Hungria e Eslováquia continuem a importar coloca em risco a coesão interna da UE.
- A recusa em sancionar esses países, optando por oferecer alternativas energéticas, é uma estratégia diplomática delicada — evita rupturas internas, mas pode prolongar a dependência russa em certos pontos do mapa europeu.
- A retórica de Trump, embora polémica, ressoa com uma corrente real na UE: há um crescente consenso de que cortar de vez os laços energéticos com Moscovo é vital para neutralizar a guerra e reforçar a independência estratégica da Europa.
Desafios para a transição energética europeia
- Infra‑estrutura e logística
Muitos Estados-membros ainda dependem de gasodutos que atravessam a Rússia ou zoneamento logístico vinculado ao mercado russo. Adaptar essas redes será dispendioso e demorado. - Fontes alternativas de energia
Países vizinhos já começaram a propor e desenvolver infraestruturas de gás natural proveniente de outras origens, energias renováveis, interligações elétricas e importações via gás natural liquefeito (GNL). Kallas referiu essas opções como viáveis para substituir o gás e o petróleo russos. - Aceitação política interna
Aumentos de preços e riscos à segurança energética local podem gerar descontentamento entre os cidadãos, especialmente em países mais vulneráveis. Isso pode trocar o consenso pela contestação política. - Equilíbrio entre sanções e estabilidade económica
Cortar abruptamente as importações russas pode gerar choques no mercado global de energia, afetar os preços e criar turbulência em cadeias de abastecimento.
A posição expressa por Kaja Kallas — de “grande arrependimento” por alguns países europeus ainda importarem energia russa — revela um momento decisivo na política energética da UE. A proposta de eliminar essas importações até 2028 mostra que a Europa aspira a recuperar autonomia estratégica, reduzindo a dependência de recursos energéticos controlados por um país em conflito.
Ao mesmo tempo, a tensão entre solidariedade interna (com países mais dependentes) e rigor estratégico (com cortes definitivos) é evidente. A recusa em sancionar diretamente Hungria e Eslováquia indica que Bruxelas prefere persuadir ao punir, oferecendo alternativas energéticas em vez de adotar medidas punitivas drásticas.
Se a Europa conseguir efetivar essa transição até 2028 — realocando rotas de fornecimento, expandindo infraestruturas e promovendo fontes renováveis — o continente poderá sair mais fortalecido dessa crise energética. Caso contrário, permanecerá vulnerável a choques futuros e refém de decisões externas.







