Quando o silêncio levanta questões desconfortáveis

As férias são aquele momento estranho em que os profissionais param de correr, mas não necessariamente de pensar. Ele relaxa com Excel, PowerPoint e e-mail corporativo, mas sua cabeça continua funcionando no piloto automático. Talvez porque quando o barulho diminui surgem questões incômodas. Aquelas que durante o ano ficam repletas de reuniões “urgentes”, agendas impossíveis e projetos estratégicos, dos quais ninguém se lembra três meses depois.

Final de ano tem balanço existencial. Você olha para trás e surge uma dúvida que o preocupa mais do que qualquer auditoria. minha carreira é o que você escolheu ou o que você deixou para trás quando estava ocupado? Os feriados oferecem uma oportunidade nada glamorosa, mas necessária, de pensar em sua carreira sem a correria da segunda-feira ou a tirania do calendário.

Não se trata de se reinventar em quinze dias ou voltar da praia com um propósito de vida escrito num guardanapo. Trata-se de organizar questões que, se não forem pensadas agora, costumam ressurgir em julho na forma de cinismo, apatia ou queimando com cargo elevado e salário competitivo.

A primeira pergunta é dura e direta: quem está além do posto? Muitos profissionais confundem identidade com posição. “Sou gestor”, “Sou diretor”, “Sou sócio”. Mas quando um cargo é suspenso, por férias, dispensa ou reestruturação elegante, cria-se um vazio. Professora Herminia Ibarra (autora do livro Identidades de trabalho) diz claramente: a identidade profissional não se revela olhando o mar, ela se constrói tentando. O autor identifica três estratégias principais para navegar eficazmente nas mudanças de carreira: (1) experimentar novas atividades profissionais, (2) interagir com novas redes de pessoas e (3) interpretar o que está a acontecer à luz das oportunidades emergentes. O problema é que existem carreiras inteiras que são construídas sem tentar nada fora da função atribuída. Então o tédio nos surpreende, como se fosse um novo vírus.

Outra questão incômoda é em que estágio profissional cada pessoa se encontra. Nem todo transtorno é uma crise profissional. Às vezes é apenas uma mudança de ciclo. Querer aprender tudo aos trinta não é o mesmo que começar a se perguntar qual é o propósito de aprender aos cinquenta. Um erro comum é negar o palco e continuar agindo como se nada tivesse mudado. É aqui que começa o atrito silencioso, do tipo que não aparece em nenhum KPI.

Os especialistas também recomendam verificar as âncoras em execução. Edgar Shane falou sobre os valores inegociáveis ​​que existem mesmo que não sejam nomeados: autonomia, segurança, desafio, influência, equilíbrio, entre outros. Muitos profissionais descobrem suas âncoras tarde, após anos evitando-as. Aceitavam papéis de prestígio que os afastavam das coisas de que gostavam, ou promoções que os colocavam no comando, quando na verdade adoravam fazer isso.

Coisas importantes também acontecem fora do escritório, embora o mundo corporativo as chame de “hobbies”, como se a vida real fosse entretenimento. Escrever, ensinar, treinar, criar ou participar de projetos paralelos não é uma perda de foco; é o oxigênio da identidade. Os profissionais que existem apenas dentro de uma organização tendem a fragilizar-se quando essa organização muda ou decide prescindir deles com um sorriso e “não é pessoal”.. É importante ter atividades fora do trabalho para que o sentido da vida não seja apenas o escritório.

Finalmente, Pensar na sua carreira como um portfólio e não como uma escada ajuda a reduzir a ansiedade. Uma mistura de funções, receitas e projetos que coexistem. emprego formal, consultoria, docência, pequenos negócios (cada pessoa pode montar a sua combinação). Não para fazer agora, mas para parar de acreditar que só existe um caminho sério, linear e aceitável para a carreira profissional.

As férias também servem para rever com sucesso o seu relacionamento. Os resultados anuais são geralmente medidos por métricas emprestadas: contagem, classificação, posição, visibilidade. Em janeiro, quando ninguém está olhando o currículo, surge outro critério mais inconveniente: o sentido. Não é uma questão romântica, é uma questão pragmática. O que faço me sustenta ou apenas exige? Isso ordena minha vida ou assume completamente o controle?

Outra armadilha comum é pensar que a inibição está ao contrário. Muitos profissionais vivem em modo de acumulação: mais projetos, mais responsabilidades, mais reuniões. Mas a acumulação nem sempre resulta. Às vezes é apenas procrastinação. As férias permitem uma coisa estranha: distinguir o cansaço do desalinhamento. Estar exausto não é o mesmo que estar descentralizado, embora pareça o mesmo ao longo do ano. Também é um bom momento para revisar referências profissionais. Com quem estudamos, com quem competimos, com quem repetimos conversas vazias. Uma carreira não se constrói na solidão, mas também não é necessário viver como uma competição constante. O cinismo organizacional geralmente nasce de relacionamentos mal digeridos, e não de falta de talento.

O problema é que muitas destas questões não cabem na agenda de trabalho.. Não têm dono, não têm orçamento e não produzem resultados imediatos. É por isso que eles estão atrasados. Até que o corpo, a cabeça ou o humor digam: basta. As férias por si só não resolvem nada. Eles apenas reduzem o ruído. E quando o barulho diminui, algumas verdades emergem. Não para agir imediatamente, mas para não esquecê-los quando o ano recomeçar. Refletir sobre a carreira é um exercício incômodo porque obriga você a assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas, pelos silêncios tomados e pelos caminhos não trilhados. Mas também é uma forma de restaurar a reputação. Algo raro em organizações que exigem comprometimento constante e ao mesmo tempo oferecem cada vez menos confiança.

Se você quiser um exercício prático, abaixo estão cinco perguntas sobre espreguiçadeiras. Primeiro, que parte do trabalho fornece energia e que parte a absorve? Em segundo lugar, a que você diz sim por medo (perder status, dinheiro, pertencimento) e não por desejo? Terceiro, se mudarem o título amanhã, o que eles realmente sabem fazer? Quarto. que âncora eles traem para “ser profissionais”? Quinto. que projeto fora do escritório pode restaurar a diversão, a curiosidade e a autoestima?

Muitos voltam em março com a mesma promessa de sempre. “Este ano vou me organizar”, mas a realidade diz outra coisa.. O sistema é pensado para que a pessoa não se organize, viva correndo atrás das urgências alheias e acreditando que isso é adequado. A caixa é elegante, dando uma sensação de importância em troca do tempo. Portanto, o melhor fechamento do ano não é um balanço de conquistas, é um ato de mínima honestidade. Saiba quais carreiras estão sendo construídas, para quem e a que custo. O resto – cursos, mudanças, promoções – vem depois. Se ele vier. E se não, pelo menos a decisão é sua. Férias não são para fugir do trabalho, são para olhar para fora. O processo pode doer se você estiver encostado na parede errada na carreira.


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