A entrevista Carlson-Huckabee pode ser o alerta de que os americanos precisam de política

A entrevista do famoso jornalista conservador americano Tucker Carlson com o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, causou grande comoção. Desde que foi divulgado na sexta-feira, observadores de todo o espectro político dos Estados Unidos recorreram às redes sociais para comentar.

Na verdade, a entrevista destacou – talvez mais do que qualquer outra manifestação política ou mediática – uma suspeita crescente de que as autoridades americanas podem ser mais leais a um país estrangeiro do que aos EUA. Este é um momento decisivo para a forma como os americanos veem a relação do seu governo com Israel.

Um verdadeiro amigo de Israel

Huckabee, um ministro batista e ex-governador do Arkansas, foi confirmado como embaixador dos EUA em Israel em abril de 2025. A notícia de sua nomeação foi bem recebida pelo governo israelense e por vários grupos pró-Israel, e ele foi aclamado como “um verdadeiro amigo de Israel”.

Carlson deixou claro ao longo de sua entrevista que Israel está muito próximo do coração de Huckabee, já que ele repetiu repetidamente os pontos de discussão israelenses.

Ele falou do “direito bíblico” de Israel à terra; A Cisjordânia ocupada é referida como “Judéia e Samaria”; E Israel também parecia aprovar a expansão do seu território para outras partes do Médio Oriente.

Ele referiu-se repetidamente aos interesses israelitas como interesses dos EUA, usou “nós” para aparentemente incluir Israel e insistiu que “o problema na fronteira com o Líbano” era uma questão com a qual os americanos deveriam estar preocupados. Ele defendeu o seu encontro com o ex-analista de inteligência americano Jonathan Pollard, que foi condenado por espionar os EUA para Israel, e defendeu a sua libertação antecipada da prisão.

Huckabee chegou ao ponto de atacar os militares dos EUA numa tentativa de defender as violações dos militares israelitas em Gaza.

Quando Carlson foi pressionado sobre o assassinato de civis palestinos em Gaza por Israel, ele destacou que os militares israelenses são mais cuidadosos em evitar baixas civis do que os militares dos EUA.

Depois de Huckabee ter argumentado que a guerra de Israel em Gaza tinha “matado menos civis” do que qualquer guerra urbana moderna, Carlson pressionou-o para que lhe fornecesse um ponto de referência.

Ao comparar as duas guerras dos EUA – no Iraque e no Afeganistão – o embaixador salientou que os comandantes militares israelitas estavam mais preocupados em proteger a vida civil do que os seus homólogos americanos.

Um embaixador dos EUA que argumenta publicamente que um exército estrangeiro é mais humanitário do que as forças armadas do seu próprio país levanta inevitavelmente questões sobre onde residem as suas principais lealdades.

Mas Huckabee não é o único “verdadeiro amigo de Israel” entre a elite política dos EUA.

Sabe-se que o Congresso dos EUA, em ambos os lados do corredor, aplaude de pé o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, sempre que o visita.

O chefe de Huckabee, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou repetidamente que ele é “o melhor amigo que Israel… já teve”.

O antecessor de Trump, o presidente Joe Biden, declarou-se orgulhosamente sionista e garantiu total apoio e impunidade a Israel, que cometeu o genocídio em Gaza.

A senadora da Carolina do Sul, Lindsey Graham, vangloria-se de que a cada duas semanas Israel “precisa de mim ou não”.

O ex-prefeito de Nova York, Eric Adams, decidiu visitar Israel no final de seu mandato e disse que estava servindo Israel como prefeito da maior cidade dos Estados Unidos.

E a lista continua.

Durante muito tempo, as declarações de lealdade a Israel foram consideradas uma vantagem política na política dos EUA. Mas isso pode estar mudando.

Um chamado para despertar

Os académicos americanos há muito que se interessam pela grande influência de Israel na política dos EUA. Estudiosos como John Mearsheimer e Stephen Walt escreveram extensivamente sobre esta questão.

Mas durante muitos anos, este escrutínio esteve em grande parte confinado aos círculos académicos ou activistas de esquerda. Conservadores e liberais rotularam esses críticos como teóricos da conspiração ou anti-semitas.

A entrevista Carlson-Huckabee talvez tenha deixado escapar o gato da direita americana.

O que torna a entrevista importante não é apenas a substância das observações de Huckabee, mas o entrevistador, o local, o público e a mensagem subjacente da linha de questionamento.

Uma personalidade conservadora muito popular dos meios de comunicação social viajou para Israel e pressionou publicamente o embaixador dos EUA em exercício sobre se os interesses americanos estavam a ser subordinados aos interesses israelitas. Ele questionou os fundamentos teológicos e históricos do sionismo, criticou o tratamento dispensado por Israel aos cristãos palestinos e perguntou por que os dólares dos impostos dos EUA eram enviados a Israel.

Nas suas respostas, o embaixador fala mais como representante do governo israelita do que do governo dos Estados Unidos.

A julgar pela resposta defensiva de Huckabee após a entrevista e pelo seu impacto nas redes sociais, ele está a aprender uma lição importante: parecer que coloca Israel em primeiro lugar e a América em segundo já não é uma vantagem, mas sim uma desvantagem, para os políticos americanos.

As autoridades americanas eleitas estão a observar atentamente a reacção do público – especialmente à luz dos dados das sondagens que mostram que a opinião pública americana sobre Israel mudou dramaticamente nos últimos anos.

Os incentivos políticos que proporcionaram apoio incondicional a Israel durante décadas enfraqueceram agora. O cálculo político também está a mudar – pode ser politicamente vantajoso para os responsáveis ​​norte-americanos adoptarem abordagens mais razoáveis ​​e abertamente críticas em relação a Israel.

Isso por si só representa uma mudança significativa.

A entrevista de Carlson com Huckabee não criou essa mudança, mas trouxe-a para o coração do poder americano. Se a questão “América primeiro ou Israel primeiro” puder agora ser colocada abertamente nos círculos conservadores, importantes fronteiras políticas já foram quebradas.

A entrevista Carlson-Huckabee pode ser o alerta de que a política americana necessita para se libertar da influência de uma nação do Médio Oriente que há muito mina os interesses dos EUA.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem a posição editorial da Al Jazeera.

Link da fonte

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui