Brasil criminaliza oponentes transgêneros Notícias do mundo

A feminista Isadora Borges de Aquino Silva, da Paraíba, Brasil, não acredita que um homem possa se tornar mulher. O estudante de veterinária de 34 anos disse nas redes sociais em novembro de 2020. Ele também postou uma declaração em vídeo do professor emérito da Universidade de Sydney, Bronwyn Winter: “Uma pessoa que se identifica como transgênero retém o DNA com o qual nasceu. Nenhuma cirurgia, hormônios sintéticos ou troca de roupa mudarão esse fato.” A Sra. Winter citou Simone de Beauvoir para apoiar seus pontos de vista.

Imagem representativa. (AP)

Por publicar essas opiniões, a Sra. Silva foi acusada pelo Ministério Público Federal do crime de “transfobia”. A data do julgamento está marcada para terça-feira. Se for considerado culpado, ele pode ser multado e preso por até cinco anos. Mesmo se for absolvido, ele enfrentará desafios legais significativos para defender o seu discurso.

O caso mostra até que ponto o Brasil se afastou de ser uma democracia liberal moderna desde que foi libertado da ditadura em 1985. Os tribunais já não são limitados pela constituição e a dissidência que desafia a versão de justiça do tribunal corre o risco de mais prisão.

O Congresso brasileiro não aprovou nenhuma lei que criminalize a “transfobia”. O Supremo Tribunal fez isto – por declaração – em Junho de 2019. O Supremo Tribunal votou 8-3 para alargar as protecções a uma lei existente que proíbe a discriminação racial na contratação, habitação e acesso público a pessoas gays e transexuais. A lei também criminaliza a difamação, os insultos ou os insultos raciais.

Não está claro como o Supremo Tribunal do Brasil adquiriu poderes legislativos e outros para si sem qualquer pressão do legislativo, que deveria punir juízes desonestos. Uma teoria é que o Congresso é intimidado por um Supremo Tribunal que está pronto a usar a lei contra qualquer político que não se enquadre.

A ação do Supremo Tribunal do Brasil seguiu-se a uma decisão de 2021 de anular a condenação por corrupção de 2017 do ex-presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva. Lula não foi absolvido, mas o veredicto chegou tarde demais para seu novo julgamento devido à prescrição, abrindo caminho para que o populista de esquerda concorresse novamente à presidência em outubro de 2022. Ele venceu.

Muitos brasileiros ficaram indignados com a politização do Judiciário. Eles animaram grupos de bate-papo, redes sociais e plataformas de notícias independentes com comentários que não eram totalmente lisonjeiros para o judiciário.

O ministro Alexandre de Moraes presidiu o Tribunal Eleitoral, que julga as campanhas presidenciais. Sob a sua liderança, aprovou uma resolução que criminaliza essas críticas públicas, chamando-as de “desinformação” e “notícias falsas”, e invadiu casas, congelou contas bancárias e intimou registos financeiros dos opositores de Lula. Um tribunal ordenou que as empresas de mídia social bloqueiem o conteúdo de que gostam. Quando Elon Musk se recusou a obedecer, o juiz de Moraes demitiu X.

Em julho, a administração Trump impôs sanções da Lei Magnitsky contra o juiz de Moraes, que, segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, é “responsável por uma campanha opressiva de censura, detenções arbitrárias que violam os direitos humanos e perseguição política, inclusive contra o ex-presidente Jair Bolsonaro”. A esposa da ministra Vivan Barsi de Moraes e seu escritório de advocacia, o Lex Institute, também foram sancionados.

O Supremo Tribunal continuou a processar o Sr. Bolsonaro. Em setembro deste ano, por 4 votos a 1, foi considerado culpado de tentativa de golpe contra Lula e condenado a 27 anos de prisão. Em uma dissidência de 452 páginas, a juíza Louise Fuchs detalhou as inúmeras maneiras pelas quais o tribunal decidiu sobre os direitos de Bolsonaro. Os EUA levantaram todas as suas sanções em dezembro.

O tribunal também é acusado de corrupção. Vejamos o exemplo do colapso do Banco Master em São Paulo em novembro. Pode parecer apenas uma possível fraude bancária – embora possa custar ao fundo de seguro de depósitos do Brasil até 10 mil milhões de dólares. Mas vá mais fundo e o nome de Moraes surgirá. Entende-se que o escritório de advocacia Barci de Moraes, de propriedade da Sra. de Moraes, assinou um contrato de três anos no valor de US$ 24 milhões com o Banco Master para fornecer serviços não especificados.

Antes da falência desse banco, ele tentou comprar um banco estatal, o Banco de Brasília. Isso nunca aconteceu porque o presidente do banco central do Brasil, Gabriel Galipolo, e o seu conselho de governadores se recusaram a aprovar a venda. Mas os registros telefônicos mostram que o juiz de Moraes fez inúmeras ligações para Galipolo antes da liquidação do banco. Tanto o juiz quanto sua esposa dizem não ter feito nada de errado. Mas parece ruim vindo de um tribunal que não responde a ninguém.

Falcon Alves, o escritório de advocacia que representa a Sra. Silva, me disse que não estava argumentando que a transfobia era um crime neste caso. Em vez disso, argumenta ele, “as declarações são opiniões expressas num debate filosófico e científico contínuo e não constituem discurso de ódio, incitação à discriminação ou violência”. No mês passado, uma juíza de apelações negou o pedido de condenação e, em vez disso, concluiu o que seus advogados disseram ser os elementos do crime. A justiça ainda pode prevalecer, mas é uma decisão que não augura nada de bom para o futuro da liberdade brasileira.

Escreva para O’Grady@wsj.com.

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