Apenas um dia depois de os Estados Unidos e o Irão terem assinado um histórico memorando de entendimento (MoU) destinado a pôr fim a meses de guerra e iniciar conversações sobre o programa nuclear de Teerão, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, adiou inesperadamente uma viagem planeada à Suíça, onde se esperava que a próxima ronda de conversações começasse.
Embora a Casa Branca tenha atribuído oficialmente o atraso a complicações “logísticas”, os desenvolvimentos em ambos os lados sugerem que as causas são muito mais profundas do que os desafios de calendário.
Motivo oficial: não estou pronto para negociar
Segundo a Casa Branca, as conversações técnicas entre Washington e Teerã ainda não foram finalizadas. Veneza e a delegação dos EUA estariam supostamente prontas para ir à Suíça, mas o quadro para a próxima ronda de negociações permaneceu incompleto.
“A logística destas negociações nunca foi simples ou previsível”, disse um porta-voz da Casa Branca, acrescentando que as conversações começariam “muito em breve”.
O próprio Vance já havia indicado que não tinha certeza se as negociações começariam esta semana.
O Irã parece relutante em agir rapidamente
O adiamento ocorre em meio a sinais de que Teerã não está disposto a avançar com negociações presenciais.
Os meios de comunicação iranianos, incluindo a agência de notícias Tasnim, relataram que Teerã quer ver provas de que Washington está cumprindo os seus compromissos no âmbito do acordo antes de enviar negociações para a Suíça. As autoridades iranianas também expressaram dúvidas sobre a necessidade de uma cerimónia formal de assinatura quando os dois presidentes já tinham assinado o acordo.
Tasnim disse que “nada foi confirmado” em relação à viagem da delegação iraniana a Genebra, enquanto os negociadores iranianos indicaram que a implementação teria de começar antes que as conversações técnicas pudessem avançar.
O Líbano está a emergir como um importante ponto de discórdia
Outro factor que complica as negociações é a campanha militar em curso de Israel no Líbano.
O Memorando de Entendimento apela à cessação permanente das hostilidades em todas as frentes, incluindo no Líbano. No entanto, os ataques aéreos israelitas teriam continuado no sul do Líbano depois da assinatura do acordo, atraindo críticas de Teerão.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Ismail Baghai, alertou que o acordo poderia ser “quebrado e nulo” se os compromissos relacionados à soberania do Líbano e à retirada de Israel não forem cumpridos. A liderança do Irão tem defendido repetidamente que o fim do conflito deveria aplicar-se a toda a região e não apenas entre Washington e Teerão.
Os relatórios também sugerem que o Irão atrasou a sua delegação, em parte devido à insatisfação com a operação em curso de Israel.
Crescente pressão política em Washington
O atraso também ocorre num momento em que o acordo enfrenta críticas de alguns republicanos e falcões da política externa nos Estados Unidos.
Os críticos dizem que o presidente Donald Trump fez concessões significativas ao Irão, incluindo o alívio das sanções e o acesso a fundos de reconstrução, sem garantir garantias suficientes sobre as ambições nucleares ou atividades regionais de Teerão.
Veneza tornou-se o principal defensor público do acordo, argumentando repetidamente que o Irão deve demonstrar conformidade antes de colher os benefícios económicos mais amplos. A sua decisão de permanecer em Washington poderá permitir à administração gerir as consequências políticas enquanto os negociadores trabalham nos bastidores nas questões não resolvidas.
O que acontece a seguir?
O adiamento não parece indicar a rescisão do contrato. Tanto Washington como Teerão prometeram publicamente continuar as conversações, e o líder supremo do Irão, o aiatolá Mojtaba Khamenei, apoiou futuras conversações diretas, apesar de expressar reservas sobre o acordo.
No entanto, o atraso da viagem de Veneza realça a fragilidade do acordo recentemente assinado. Antes que negociações substantivas possam começar, ambos os lados devem resolver disputas sobre a aplicação, as ações israelenses no Líbano, o alívio das sanções e o futuro do programa nuclear do Irã.





