O Sudão está na vanguarda do cenário humanitário global, acolhendo agora a maior crise de deslocamento interno do mundo. De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), aproximadamente 14 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas no país.
Estes números surpreendentes no Sudão fazem parte de um aumento global mais amplo de deslocações forçadas. O ACNUR estima que o número de pessoas deslocadas à força em todo o mundo ultrapassará os 122 milhões até ao primeiro semestre de 2025.
Contudo, no meio das mudanças geopolíticas que varrem o Médio Oriente, surgiu um contra-argumento. Pela primeira vez numa década, o número global de pessoas deslocadas diminuirá em 5,9 milhões até meados de 2025. Esta mudança levanta questões críticas: O que leva as pessoas a regressar às zonas de conflito e como sobrevivem nas ruínas?
A Al Jazeera Árabe conversou com especialistas, autoridades e repatriados para entender o “caso Cartum” – o fenômeno de civis que retornam à capital sudanesa apesar da destruição, movidos pela nostalgia e por uma frágil sensação de estabilidade após o recente retorno do governo à cidade.
Área em fluxo
Embora os números globais mostrem um ligeiro declínio, a realidade regional permanece sombria. O conflito entre o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (RSF), que eclodiu em Abril de 2023, colocou uma enorme pressão sobre as infra-estruturas em todos os estados sudaneses.
A situação no resto do distrito é igualmente terrível. Na Faixa de Gaza, o deslocamento interno afecta quase dois milhões de pessoas – a maioria da população. Muitos foram deslocados várias vezes desde a ocupação israelita que começou em Outubro de 2023.
Adnan Abu Hasna, conselheiro de comunicação social da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos (UNRWA), descreve a situação em Gaza como única. Com 90 por cento das casas, escolas e infra-estruturas destruídas, Abu Hasna observa que 2,5 milhões de palestinianos estão deslocados, tornando “quase impossível” regressar à normalidade no meio da destruição total.
Entretanto, os conflitos prolongados continuam a impulsionar os números de deslocados na Síria, onde 12 milhões de pessoas foram deslocadas, e no Iémen, o número ultrapassa os cinco milhões.
A Experiência de Cartum
Cartum apresenta um estudo de caso único na dinâmica do retorno. A recente retoma das operações governamentais a partir da capital enviou um sinal de estabilidade potencial.
Adel El-Baz, diretor-geral do Centro Africano de Consultoria, vê o regresso do governo como um “convite direto” para os cidadãos seguirem o exemplo. O major-general Osama Abdel Salam, antigo director do Centro de Estudos e Pesquisas Estratégicas, argumenta que o regresso dos civis aumenta naturalmente a segurança.
“Encher bairros abandonados com moradores reduz o risco de fenómenos negativos, evita roubos e espalha uma atmosfera de esperança”, explicou Abdel Salam.
No entanto, o desafio infra-estrutural é monumental. O porta-voz do estado de Cartum, Saad El-Din El-Tayeb, disse à Al Jazeera que o governo passou mais de um ano limpando os destroços da guerra.
“Começamos limpando as cidades de corpos e veículos queimados, reiniciando estações de água e reabilitando linhas de distribuição de eletricidade”, disse El-Tayeb.
Ele destacou que Cartum sofreu a “maior operação de saque” da sua infra-estrutura eléctrica da história. Aproximadamente 15.000 transformadores de energia foram removidos por saqueadores que visavam o cobre em cabos e motores subterrâneos. Apesar disso, El-Tayeb observou que as autoridades estão a desviar a electricidade disponível para instalações críticas, como hospitais e estações de água, ao mesmo tempo que incentivam a utilização de energia solar.
‘Nostalgia’ entre as ruínas
Para os deslocados, a decisão de regressar é muitas vezes mais emocional do que prática. Rimah Hamed, dentista e jornalista, fugiu de Cartum para o estado de Gezira e depois para o Egito, quando os hospitais fecharam e a segurança entrou em colapso.
Ela voltou recentemente para a casa de sua família em Cartum. “A principal motivação é a nostalgia”, disse Hamed à Al Jazeera. “O papel do Sudão é emocional. As pessoas voltaram porque perderam as suas casas.”
Hammed encontrou seu bairro transformado. A sua casa estava vazia, sem bens essenciais, sem água corrente ou electricidade.
“Só havia uma fonte de água no bairro onde todos iam abastecer”, lembrou. “Mas aos poucos o bairro começou a voltar. O bairro começou a recuperar suas características sociais e a vida voltou um pouco.”
Hamed observou que a comunidade desenvolveu “imunidade psicológica” às condições adversas, adaptando-se à escassez através de iniciativas de base.
Pré-requisitos para a paz
Embora os laços emocionais possam provocar algum retorno, a reintegração sustentável requer recursos tangíveis. O investigador ruandês do genocídio, Tom Ndahiro, sugere que a “paz relativa” é um requisito básico – no sentido de que a situação melhorou o suficiente para sobreviver à noite.
Especialistas entrevistados pela Al Jazeera descreveram uma série de requisitos para lucros sustentáveis:
- Segurança: Liderança confiável para organizar a reabilitação e prevenir o caos.
- Asilo: Estruturas temporárias como tendas também proporcionam segurança.
- Requisitos: A segurança alimentar e o acesso à água potável não são negociáveis.
- Poder: A electricidade é considerada crítica para a estabilidade económica.
O jornalista Rami Mahakar sublinhou que a segurança deve ter prioridade. “Sem segurança, os deslocados são forçados a deslocar-se novamente”, disse ele, acrescentando que a presença de lojas funcionais de alimentos e mantimentos é crucial para aqueles que tentam reconstruir as suas vidas.
Enquanto o Sudão tenta inverter a maré da maior crise de deslocamento do mundo, a durabilidade deste rendimento continua por testar. Como observa Hamed, os repatriados são actualmente alimentados pela resiliência e pelo desejo, na esperança de reconstruir o que a guerra destruiu.







