Contos/Crônicas – José, O pastor profeta do cerrado

nomes-criativos-de-igrejas-evangelicas-003

Por Jefferson Nóbrega

— Você vai gravar um CD e venderá milhares de cópias! — apontou para o menor. — Você tocará guitarra e será um dos melhores! E essa linda menina, sua filha? Será uma maravilhosa cantora e fará um imenso sucesso louvando ao Senhor!

Foi assim que enquanto eu balançava na rede com minha filha nos braços, profetizou o burlesco profeta candango, frente à garagem de minha casa.

O personagem já é conhecido na cidade, anda para cima e para baixo com seu terno alinhado e sua cômica gravata com a bandeira da Inglaterra, sempre fazendo profecias musicais; na última vez que esteve aqui na rua provocou a ira de alguns vizinhos. Ao passar pela casa ao lado disse a um garoto que ele seria um consagrado baterista, resultado: a criança contou aos seus pais, também evangélicos, que disseram que eram palavras de Deus na boca de um profeta. Compraram uma bateria para o menino acabando com a paz da vizinhança, o pobre garoto que não tinha coordenação motora suficiente para andar de escada rolante e mastigar chiclete ao mesmo tempo, batia nos pratos como quem estivesse com ódio do instrumento. Após meses de dores de cabeça na família e da sentença de seu professor, perceberam que realmente não era a vocação dele. Talvez Deus tenha errado de endereço na hora da profecia.

Quem hoje observa o Pastor José passeando, sempre arrumado e conversador, não consegue imaginá-lo meses atrás sem nenhum tostão no bolso furado e com as roupas sujas de tinta. Era o verdadeiro Forrest Gump da cidade, sempre com uma história miraculosa e de difícil crença, eu mesmo já escutei diversas e, confesso que bem contadas e interpretadas de maneiras magníficas, realmente ele sempre teve o dom da oratória, porém para que eu acreditasse dependia unicamente se ele pagaria a conta ou não.

Sonhava em enriquecer, já tinha tentado todas as formas, esgotou seus cálculos para ganhar na Mega-Sena, Quina, Lotomania, Loto fácil, Jogo do bicho, baralho, bingo, briga de galo, corrida de jegue e todo tipo de jogos de azar que vocês imaginarem. Revoltava-se quando sua mulher dizia que apostas era coisa do demônio. Ficava ainda mais enraivado quando convidava-o à Igreja.

Entretanto, um dia algo mudou.

Todos estranharam José arrumado indo com a mulher para o culto. Não demorou muito e ele estava convertido e convencido. Contava a todos que agora tudo mudaria, pois Deus não queria seus filhos na miséria.

Depois de alguns meses, enlouqueceu ao fazer o balanço da sua vida nesse período. Percebeu que havia dado mais do que recebido. Já não tinha quase nada e o pouco que possuía foi levado pela fé. Discutiu com o pastor, brigou com a mulher e não deu outra, saiu para fundar sua própria Igreja. E dessa forma nascia o novo homem, o Pastor José.

E não é que o homem prosperou?

Mudou de vida completamente. É um homem de Deus. Usa sua eloquência para pregar, tem casa, carro e paletó “top de linha” e tudo ganhado a muito suor. Sim ele suou bastante! Não, ele não encheu laje, não empurrou carro-de-mão ao sol escaldante, nem varreu as ruas, mas suou e suou abundantemente. Tanto que sua face caricata inchava com os gritos ensurdecedores que dava ao pregar e ao incentivar a “devolução” do que Deus havia concedido aos fiéis. E dessa forma “graças a Deus” ele deixava a lama.

O homem ainda ganhou poder! O mesmo que sofria para expulsar os gatos que vagavam pela cidade e insistiam em se acasalarem no telhado de sua casa, agora expulsava até o demônio. Oh, homem poderoso meu Deus! Até a pouco tempo atrás se borrava de medo de ficar bêbado e dormir nos perigosos pontos de ônibus de Brasília — os índios e mendigos que o digam — agora encarava até o “coisa ruim” de frente. E enfrentava mesmo, gritava insanamente, ficava vermelho e de papo inchado e fazia assustadoras caretas. E não é que o “tinhoso” ia embora? Acho que ele na verdade fugia das caretas. No fundo eles devem ser até velhos conhecidos já que toda noite Guaixará¹ volta para atentar novamente.

E lá vem subindo a rua o Pastor José, de terno alinhado e sua gravata estampada com a bandeira da Inglaterra (não sei por que ele ainda insiste nessa coisa ridícula?), com sua bíblia desodorante, sorrindo e acenando, pregando e cobrando, realizado; pastor com rebanho.

1 – Guaixará é o nome dado ao Rei dos diabos na obra “Auto representado na Festa de São Lourenço”, do Pe José de Anchieta.

Toda segunda um conto ou uma crônica aqui no Kalango. Siga-nos para não perder.

Compartilhe ...Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on TumblrShare on Google+Email this to someone