Como a vida pode ser resumida em um seriado. Derek.

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Eu nunca entendi muito o humor do Monty Python, provavelmente por que eu sou burro mesmo e também, o humor britânico nunca foi um produto consumido pela minha família, diferente das comédias norte-americanas comuns. Essa “acidez” característica das séries cômicas da Terra da Rainha nunca fizeram parte do meu alimento de entretenimento semanal.

 

Até eu conhecer Derek.

 

“Derek” é um seriado produzido pelo canal aberto britânico, Channel 4, em parceria como Netflix. A série é produzida, dirigida, escrita e estrelada por Ricky Gervais, ator de grande sucesso no Reino Unido pelo seu programa, “Meet Ricky Gervais”, e mais internacionalmente pela versão original da série “The Office”, que também criou, produziu, escreveu, dirigiu e estrelou. Ricky coleciona uma estante bem populada de prêmios, sendo Primetime Emmy’s, Golden Globes, ou seja, os prêmios dados por talento, não por política e é um cara com muito poder de fazer e acontecer dentro da Televisão britânica.

A série conta o dia-a-dia de um asilo inglês, onde Derek é funcionário. Também são parte importante da narrativa a gerente do asilo, Hannah, interpretada por Kerry Godliman e Kevin, um bêbado que é amigo de Derek e passa boa parte do seu tempo no asilo. Esse é interpretado por David Earl.

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Acima de tudo, Derek é uma série sobre a vida. Sim, essa afirmação não poderia ser mais genérica. Mas ela também não poderia se encaixar melhor.

Começando pelos personagens, Derek tem algum tipo de deficiência que não é revelada, mas fica entre um nível avançado de autismo ou Síndrome de Asperger. Dessa forma, ele é um cara completamente ingênuo e puro nas suas relações, servindo como um contraponto para todos os personagens e também para o espectador que fica inacreditavelmente espantado em como nosso protagonista consegue tomar as decisões corretas sempre, e como você se estivesse na situação dele, jamais seria tão bondoso. Ele tem como gerente Hannah, uma mulher que largou a escola e trabalha nesse asilo há décadas. Derek ama e admira Hannah como nenhum amigo seu te ama e ela se impressiona com sua bondade assim como nós, a forma que ele faz qualquer coisa por seus amigos que são realmente sua família, incluindo o bêbado homeless do Kevin, que reflete diversos problemas de políticas públicas mal aplicadas da Inglaterra. Incluindo nisso, temos Dougie, o caretaker do asilo, que é responsável pelas manutenções do lugar, pilotar o ônibus para passeios externos. Um verdadeiro faz tudo.

Cada um dos personagens carrega críticas pesadíssimas e muito eficientes em relação a pressão de ser bem sucedido na sociedade, sobre a cegueira voluntária do Estado sobre as classes marginalizadas e sobre o egoísmo latente de cada nova geração sobre a anterior, a partir do momento em que não lhe servem mais. A série é rápida, curta, simples, pesada, de qualidade atingida por poucas que eu já vi e totalmente diferente dos formatos batidos e repetidos pela grande indústria do entretenimento. Talvez por isso não seja uma série de sucesso estrondoso, mas que tem qualificações superiores da grande maioria das comédias.

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A série tem como elemento narrativo importante a ambientação. O cenário do asilo gera situações de forte impacto visual e psicológico para os personagens e para o espectador. Ricky mandou muito bem escolhendo isso, pois é um ambiente dificílimo de se trabalhar e toda equipe faz isso de forma brilhante, gerando aquele sentimento de procto-realidade onde você fica abismado em ver o quão irreal aquilo é pra você, mas talvez muito real em alguma realidade que você não está inserido. Algo que o humor britânico usa bastante e que nessa série foi feito de forma excepcional.

Assim como a vida, Derek vai te fazer rir, bastante, de situações inacreditáveis. Vai te fazer chorar, bastante também. Vai te fazer criar laços e se despedir de pessoas da forma mais grosseira e incompleta que existe. Vai te fazer repensar sobre suas relações e te obrigar a mudar suas atitudes com as pessoas.

Derek é sobre a vida e tudo que ela vai te dar e te tirar.

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