Resenha Atômica #2 – A Crônica do Matador do Rei de Patrick Rothfuss

Resenha2-destaque

Fala Kalanga,

Estamos aqui com mais uma Resenha Atômica, acabou de sair do forno e dessa vez falaremos sobre a trilogia “A Crônica do Matador do Rei” dePatrick Rothfuss, mais precisamente dos dois livros já publicados no Brasil: O Nome do Vento e O Temor do Sábio, espero que vocês gostem e vamos lá.

Obs: Livre de spoilers!

Caso queira acompanhar o podcast lendo, abaixo está a transcrição do episódio:

 

Os segredos são dolorosos tesouros da mente. A maioria do que as pessoas pensam como segredo, na verdade, não é nada disso. Os mistérios, por exemplo, não são segredos. Nem o são os fatos pouco conhecidos ou as verdades esquecidas. Segredo, é um conhecimento verdadeiro que é intencionalmente ocultado.

Os filósofos discutem há seculos os pormenores dessa definição. Assinalam os problemas lógicos que existem nela, as lacunas, as exceções. Em todo esse tempo, entretanto, nenhum deles conseguiu chegar à uma definição melhor. O que talvez diga mais do que todos os sofismas combinados.

Os filósofos discutem há seculos os pormenores dessa definição. Assinalam os problemas lógicos que existem nela, as lacunas, as exceções. Em todo esse tempo, entretanto, nenhum deles conseguiu chegar à uma definição melhor. O que talvez diga mais do que todos os sofismas combinados.

Há dois tipos de segredos: Os da Boca, e os do Coração.

A maioria deles é da boca. Boatos compartilhados e pequenos escândalos sussurrados. Há segredos que anseiam por se largar no mundo. Um segredo da boca é como uma pedra na bota. No começo, mal se tem consciência dela. depois, torna-se irritante e, mais tarde, intolerável. Os segredos da boca vão crescendo à medida que são guardados, inchando até pressionar os lábios. Lutam para se soltar.

Os segredos do coração são diferentes. São privados e dolorosos e não há nada que se deseje mais do que escondê-los do mundo. Eles não inflam nem pressionam a boca. Vivem no coração, e quanto mais são guardados, mais pesados se tornam.

É melhor ter a boca cheia de veneno do que um segredo no coração. Qualquer idiota é capaz de cuspir o veneno, mas nós guardamos esses tesouros dolorosos. Engolimos em seco todos os dias para contê-los, empurrando-os para baixo, para nossas entranhas mais recônditas. Lá eles permanecem, ganhando peso, supurando. com o tempo, não há como deixarem de esmagar o coração que os contém.

Quem entende isso, compreende o que é vida.

O Temor do Sábio – Patrick Rothfuss

Ao me deparar com o livro pensei “lá vem mais uma comum fantasia épica” e quebrei a cara! O nome do Vento pode ser classificado (na minha opinião) como um dos melhores livros de literatura fantástica lançado nas últimas décadas (isso vale para O Temor do Sábio segundo livro, e, espero que toda trilogia seja assim).

Nesse universo criado por Patrick Rothfouss há uma lenda: O regecida, também chamado de O Arcano, o Sem-Sangue entre outros títulos. Um homem lendário e procurado, em torno de si giram mitos, canções e poesias. Ele é verdadeiro ou apenas um mito? O destino tratou de nos trazer a resposta ao colocar frente a frente Kvothe (pronuncia-se Kuouth), até então o pacato Kote dono da pousada Marco do Percurso e O Cronista, detalhe: não é um cronista é O Cronista.

Tendo sua real identidade descoberta Kvothe passa a contar sua história e nesse momento mergulhamos em um mundo difícil de abandonar. Um mundo que parece estar prestes a mergulhar em um caos total. Não há mais segurança nas estradas, guerras se espalham e notícias macabras chegam de todos os cantos ao Marco do Percurso, demônios parecem vagar pelas noites possuindo as pessoas, seres nefastos e mitológicos atacam vilas, lendas parecem ganhar vida. Seriam apenas boatos de viajantes e bêbados? Seja o que for Kote preocupa-se como se ele fosse o culpado pela desordem que se expande de uma forma incontrolada. E é essa dúvida, essa aura de medo, de que tudo vai dar errado, de que a qualquer momento uma catástrofe vai acontecer, que simplesmente nos prende ao livro.

A história acontece em dois focos narrativos, em primeira e terceira pessoa, com uma alternância entre passado e o presente, sendo a maior parte no passado.

Ah, se não fosse os spoiler’s! Há tanto para se falar sobre a história; mas, posso adiantar: É uma história de vida, talento e acima de tudo superação e foco sem desembocar no clichê. O livro simplesmente nos cativa; cada virada de página é uma descoberta impactante.

O mais interessante é a forma como a magia é abordada. Para os Arcanos o que classificamos como magia não é magia. É parte de um complexo sistema científico que pode ser aprendido.

Ao começar a narrar suas memórias para O Cronista, Kvothe dá um prazo de três dias para contar a história. No “primeiro dia”, ou seja, durante todo o livro um, vemos o crescimento de Kvote, a transformação de uma criança, parte de uma famosa trupe, para um garoto que precisa sobreviver. Logo no inicio a trama torna-se tão triste e abaladora a ponto de envolver emocionalmente o leitor. É simplesmente genial.

É claro que há momentos “arrastados” e até um pouco chatos, mas passam até despercebidos diante da grandeza do livro.

Durante toda a trama o autor deixa pistas de que há uma conspiração maior acontecendo. Que há algo deliberadamente oculto, que a história de Kvothe vai muita mais além de suas aventuras de crianças e seu aprendizado de aprendiz de Arcano.

O mundo criado por Rothfouss também merece destaque por sua complexidade, ele apresenta-nos tudo, sua cultura, sistema monetário, religiões, costumes e por aí vai… E diferente de alguns escritores da fantasia, a descrição do cenário, feita pelos olhos do garoto, é de certa forma instantânea, por isso não causa cansaço. Os personagens são todos desenvolvidos com profundidade, os diálogos, graças à maestria da escrita de Rothfouss, são pautados por um belo realismo e muitas vezes carregados de ótimos raciocínios filosóficos, como vocês puderam escutar no início.

 Além de tudo isso ainda há um foco na música e na arte. Kvothe é um filho dos Edena Ruh, uma trupe de artistas famosa em todo o mundo.

“Antes de começarmos, você precisa se lembrar que sou um Edena Ruh. Contávamos histórias antes do incêndio de Caluptena. Antes de haver livros em que se pudesse escrever. Antes de haver música para tocar. Quando a primeira fogueira crepitou, nós, os Ruh, já contávamos histórias no círculo de sua luz bruxuleante”. P. 56.

Esse traço de sua família é uma companhia marcante por toda a história, até na narração de sua vida ao Cronista. Kvothe é um músico habilidoso, ele não apenas toca, ele vive-a, fazendo as pessoas chorarem, deixando que seus dedos sangrem sobre o alaúde. Se você ama música irá adorar os trechos onde ela é abordada, e outra coisa, ela não é apenas um detalhe, um aparato na história, não, a música é parte fundamental dos livros, e não apenas isso, foi uma música que causou a tempestade que mudou completamente a vida da criança Kvothe e transformou-o em uma lenda.

Mas acredito que o mais significativo disso tudo é o mistério que o autor consegue manter. A Trilogia chama-se “A Crônica do Matador do Rei”, mas que rei é esse? Quando e como ele o matou? Continua sendo um mistério, e por fim como alguém como Kvothe tornou-se um mero hospedeiro? Como um músico andarilho da tribo dos Edena Ruh ganhou tanta importância? São perguntas que nascem e são o grande trunfo do autor para levar os leitores até o final da trilogia.

Vamos fazer o seguinte, como não consigo falar sem soltar spoiler’s a torto e à direita, até porque eu falo demais, vamos deixar que o próprio Kvothe se apresente:

Meu nome é Kvothe, com pronúncia semelhante à de ‘Kuouth’. Os nomes são importantes, porque dizem muito sobre as pessoas. Já tive mais nomes do que alguém tem o direito de possuir(…)

Meu primeiro mentor me chamava de E’lir, porque eu era inteligente e sabia disso. Minha primeira amada de verdade me chamava de Duleitor, porque gostava desse som. Já fui chamado de Umbroso, Dedo-Leve e Seis-Cordas. Fui chamado de Kvothe, o Sem-Sangue; Kvothe, o Arcano; e Kvothe, o Matador do Rei. Mereci esses nomes. Comprei e paguei por eles.

Mas fui criado como Kvothe. Uma vez meu pai me disse que isso significava ‘saber’.

Fui chamado de muitas outras coisas, é claro. Grosseiras, na maioria, embora pouquíssimas não tenham sido merecidas.

Já resgatei princesas de reis adormecidos em sepulcros. Incendiei a cidade de Trebon. Passei a noite com Feluriana e saí com minha sanidade e minha vida. Fui expulso da Universidade com menos idade do que a maioria das pessoas consegue ingressar nela. Caminhei à luz do luar por trilhas de que outros temem falar durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e escrevi canções que fazem os menestréis chorar.

Vocês devem ter ouvido falar de mim.

Nem preciso falar que recomendo a leitura desse livro, pois para mim é simplesmente genial.

 Avaliações Atômicas:

No Skoob  O Nome do Vento e O Temor do Sábio, os dois livros da trilogia já publicados, são avaliados pelos leitores como em uma escala de 1 a 5 como 5 estrelas.

Eu avalio o O Nome do Vento como 8.8 atômicos, por causa de algumas partes arrastas que eu achei chato, e o Temor do Sábio como 9.3 atômicos, poque o segundo livro foi muito melhor.

Essa foi mais uma Resenha Atômica! Obrigado pela companhia de vocês e até a próxima.

Enquanto resolvemos alguns problemas com o plugin, você pode ouvir ou baixar o podcast no soundcloud.

Compartilhe ...Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on TumblrShare on Google+Email this to someone