Com o álbum ‘Nheengatu’ Titãs retomam o rock contestador

titas-nheengatu-capa

Tenho a impressão de que o rock perdeu, nos últimos tempos, a força de um discurso mais contestador. Hoje, é só conversa de amor, modo de vida adolescente… As questões mais políticas migraram para o rap. Só que rap não é rock. A gente vê (nos shows dos Titãs) muita garotada com ânsia de ouvir rock de verdade. (Tony Belotto, guitarrista)

Com mais de 30 anos de carreira, a banda Titãs mergulha em seu próprio passado musical para trazer seu novo álbum chamado “Nheengatú”. O nome do álbum é realmente simbólico; nheengatu é uma língua criada no século XVII pelos jesuítas derivada do tupi-guarani com a intenção de unir as diferentes tribos indígenas. É exatamente isso que propões musicalmente esse novo álbum, unir todos os estilos do Titãs focando novamente na crítica social.

Com letras fortes como “Mensageiro da desgraça” (“Cansei da fome, do crack/ Da miséria e da cachaça/ Cansei de ser humilhado/ Sou o mensageiro da desgraça”, de Miklos, Bellotto e Britto) e “Chegada ao Brasil (terra à vista)” (“Tem caça cabaça cachaça trapaça/ Mordaça arruaça vidraça/ Desgraça raça pirraça”, de Branco, Emerson Villani e Aderbal Freire-Filho), é impossível não ser remetido ao disco “Cabeça de Dinossauro” de 1986.

Tony Belotto, guitarrista, falou sobre o álbum ao Correio Braziliense:

‘Nheengatu’ dialoga muito mais com os Titãs dos anos 1980 do que com a produção mais contemporânea da banda, não?
Ainda que o disco seja diferente, o Brasil de hoje pode ser comparado com o Brasil de Cabeça. Naquele momento (1986), o país vivia a inquietação, o que nos dava a sensação de as coisas estarem saindo um pouco do controle. O fato de a turnê do Cabeça dinossauro (de 2012) ter sido tão bem-sucedida acabou nos trazendo a certeza de que deveríamos fazer um disco pesado. Resolvemos radicalizar, não fazer música para tocar em rádio.

O tom de crônica político-social permeia todo o álbum. Como ele foi definido?
Quando resolvemos falar sobre o Brasil, pensamos em elementos da música brasileira. Vimos que o país de hoje permite uma crônica de várias situações absurdas. Isso era uma característica do samba dos anos 1940, os compositores comentavam o que estava ocorrendo. Hoje em dia, está tudo padronizado… Quando vimos a cara com que o disco estava ficando, falando de homofobia, racismo e violência contra a mulher, pensamos: por que não a pedofilia? Nenhuma canção brasileira que conheço ousou falar desse tema.

Você ouve o rock produzido atualmente no Brasil?
Meio en passant, sem a atenção devida. Tenho a impressão de que o rock perdeu, nos últimos tempos, a força de um discurso mais contestador. Hoje, é só conversa de amor, modo de vida adolescente… As questões mais políticas migraram para o rap. Só que rap não é rock. A gente vê (nos shows dos Titãs) muita garotada com ânsia de ouvir rock de verdade. De certa maneira, ele vem ganhando força, as “rádios rock” de Rio e São Paulo estão voltando. Até pela situação política atual, o rock está se fazendo mais presente. Pois, nessas horas, só o rock explica, comenta de maneira contundente. Sambinha nenhum vai explicar o que está acontecendo.

Pedofilia, preconceito, racismo, pobreza, drogas; nada é polêmico demais para “Nheengatu”.

Deixo abaixo três das novas músicas para que sintam o gostinho do novo disco:

“Hoje em dia, ninguém quer tocar novidade. A gente resolveu remar contra a maré” (Tony Belotto)

Pedofilia

República das bananas

Cadáver sobre cadáver

 E vocês o que acharam?

Compartilhe ...Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on TumblrShare on Google+Email this to someone