O aprendiz de assassino (Robin Hobb)

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Em minha primeira postagem aqui no Kalango, resolvi trazer para vocês uma recomendação de leitura.

O aprendiz de assassino, de Robin Hobb, foi uma das agradáveis surpresas de 2013. Publicado no Brasil pela Leya, o livro já conta com milhares de fãs lá fora e, agora, certamente aqui dentro. É o primeiro volume da Trilogia Farseer, que aqui também renderá três livros, conforme reportou a editora.

Sinopse

O jovem Fitz é o filho bastardo do nobre Príncipe Cavalaria e foi criado pelo cocheiro de seu pai, à sombra da corte real. Ele é tratado como um penetra por todos na realeza, com exceção do Rei Sagaz, que faz com que ele seja secretamente treinado na arte do assassinato. Porque nas veias de Fitz corre a mágica do Talento – e o conhecimento obscuro de um garoto criado em um estábulo, entre cães, e rejeitado por sua família. Quando assaltantes bárbaros invadem a costa, Fitz está se tornando um homem. Logo ele enfrentará sua primeira missão, perigosa e que despedaçará sua alma. E embora alguns o vejam como uma ameaça ao trono, ele pode ser a chave para a sobrevivência do reino.

Confesso que o enredo, que me parecia um tanto quanto batido, me deixou com um pé atrás: um órfão bastardo como protagonista, que aprende as técnicas de um assassino profissional. Sim, são elementos bastante recorrentes na Literatura Fantástica, mas a originalidade de uma obra não precisa residir em seus grandes temas, e sim nos pequenos detalhes. E O aprendiz de assassino cumpre, a meu ver, essa expectativa. Os mitos e tradições que permeiam o mundo da história – o mundo dos Seis Ducados – reinventam aquilo que poderia ser considerado clichê. O sistema de magia desenvolvido por Hobb também é fascinante.

Atento desde já que o mistério maior do enredo – o dos salteadores bárbaros e seus Navios Vermelhos – em dado momento deixa de receber o foco que recebia, submerge no pano de fundo e termina não solucionado. Nada mais natural, se considerarmos que se cuida apenas do primeiro volume da saga. A história acaba divergindo para um side plot que, sim, é interessante devido à intriga que contém, mas cujo desfecho talvez não satisfaça a uns e a outros.

Mas, trama à parte, o que me conquistou de verdade foi a magnífica prosa da autora. Notem que admiro, por exemplo, a capacidade de Patrick Rothfuss, n’A Crônica do Matador do Rei, de pintar sentimentos e de despertar a emoção do leitor com palavras bem escolhidas e frases bem construídas. Bem, acontece que Hobb não fica atrás nesse quesito. Fazendo uso de uma narrativa em primeira pessoa, ela sabe exatamente como retratar uma cena de modo não só a manter o interesse do leitor, mas também a cativar seu coração. É uma habilidade preciosa – e que já me levou a revisitar as páginas do livro um monte de vezes.

O aprendiz de assassino 1A estrutura da história sugere que estamos lendo o diário do protagonista, Fitz, anos depois de acontecerem os fatos que nos são apresentados. Cada capítulo começa com um apanhado de conhecimentos gerais sobre o universo de Hobb, que serve, de um lado, para aprofundar o cenário e, de outro, para incitar a curiosidade do leitor, levantando mistérios não resolvidos. Para mim, o trecho mais instigante foi o que explicou a origem do costume de se nomear os filhos com uma qualidade, que, mais tarde, os moldará – por exemplo, Bronco, Príncipe Veracidade e Dama Paciência.

Essa tática permitiu a Hobb elaborar personalidades bem diferentes e marcantes para os personagens secundários. No caso do protagonista, órfão bastardo, como só chega a ser batizado após crescer um pouco, e como seu nome nada significa – reproduzindo a nota da editora, Fitz vem do latim filius, i.e., “filho de” ou “bastardo” –, ele pode amadurecer sem sofrer os constrangimentos da nomeação. É isso que o torna mais imprevisível. Sobretudo, é mais fácil para o leitor identificar-se com ele, porque – salvo sua propensão para utilizar a Manha, um dom de se conectar com animais – ele não possui nenhuma característica especial. É essa normalidade que o força a sair de situações enrascadas de maneiras bem verossímeis. Seus conflitos internos, suas fraquezas, a possibilidade de que pode falhar – tudo isso contribui para que sua trajetória arrecade a empatia do leitor. Ele é somente um rapaz comum tentando encontrar seu rumo na vida.

Os diálogos são sucintos, mas belos; o clima que os envolve muitas vezes é tecido pelo silêncio dos interlocutores – e nesse aspecto Hobb consegue falar tanto com tão poucas palavras. Reflexões sagazes também estão presentes no texto, e abaixo destaco uma das que mais gostei:

“É da natureza do mundo que todas as coisas procurem um ritmo e, nesse ritmo, uma espécie de paz? Para mim, com certeza, isso sempre pareceu ser assim. Todos os acontecimentos, não importa quão chocantes ou bizarros, são diluídos pouco tempo depois da sua ocorrência pela continuidade das rotinas necessárias à vida cotidiana. Homens vagando pelo campo de batalha à procura dos feridos entre os mortos ainda vão parar para tossir, para assoar o nariz, ainda vão levantar os olhos para contemplar o V da formação dos gansos em voo. Já vi camponeses continuarem a lavrar e a plantar, ignorando um embate de exércitos a apenas alguns quilômetros de distância” (p. 53).

Embora as descrições do ambiente não tenham me impressionado, o contrário se passou com as descrições das pessoas. Hobb é criativa ao expor os traços de seus personagens. Raramente recorre ao chamado “perfil policial”: em vez de indicar a cor dos olhos, a cor do cabelo, o formato do rosto e a altura, opta por explorar o âmago da pessoa, ou então revela sua personalidade por vias inusitadas:

“Estava enfeitada como o ninho de uma gralha. Nunca tinha visto antes vestimentas que falassem tão espalhafatosamente de gastos e tão pouco de gosto. Tomou o seu lugar numa chuva de floreados e gestos que lembravam um pássaro em rituais de acasalamento. O seu perfume avançou sobre mim como uma onda, e este também falava mais de moedas do que de flores” (p. 149).

Para finalizar, cito um ponto que uns julgarão desimportante, mas que para mim fez uma enorme diferença: se você gosta de fantasia medieval, provavelmente vai curtir o livro – mas se gosta de fantasia medieval e de cachorros (sim, cachorros, filhotes!), a Saga do Assassino foi feita especificamente para você. Ah, e tantas foram as ocasiões em que, durante a leitura, me peguei pronunciando um longo “Oooooh!” mental nas cenas com filhotes. Hobb é expert em narrar a delicada interação que se cria entre cães e pessoas, porque, ao fim e ao cabo, é disso que se trata O aprendiz de assassino: laços. É uma obra sobre a importância dos laços para a identidade e para a felicidade de alguém. A título de conclusão, eis uma das cenas que me cativou:O aprendiz de assassino 3

“O cãozinho olhou para mim e me encarou diretamente. Isso, de acordo com minha experiência, era bastante fora do comum. A maior parte dos cães evitava um prolongado contato visual. Mas também era fora do comum a percepção que ele tinha das coisas que o rodeavam. Sabia, de minhas experiências furtivas no estábulo, que a maior parte dos cachorrinhos da idade dele tinha pouco mais do que uma autoconsciência confusa, e estava mais receptiva à mãe, ao leite e às necessidades imediatas. Este fulaninho tinha uma identidade sólida estabelecida e um profundo interesse por tudo o que se passava à sua volta. Gostava de Renda, que lhe dava pedaços de carne para comer, e desconfiava de Paciência, não porque fosse cruel, mas porque tropeçava nele e passava a vida colocando-o de volta no cesto cada vez que, com muito custo, conseguia pular para fora. Pensava que meu cheiro era muito interessante, e os odores dos cavalos e pássaros e outros cães eram cores na sua mente, imagens de coisas que por enquanto não tinham forma nem realidade para ele, mas que mesmo assim achava fascinantes. Eu lhe transmiti as imagens que correspondiam aos odores, e ele escalou meu peito, abanando a cauda, me farejando e lambendo de exaltação. Leve-me, mostre-me, leve-me” (p. 214).

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