Memórias de um Cariboca [Conto]

Sem título

Barão Rodrigues e seus jagunços avançavam ainda mais pelas matas de Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte, hoje chamada apenas de Pirenópolis. Na noite anterior alguém tinha atacado seus animais e incendiado a lavoura, por isso embrenhavam-se no meio das árvores retorcidas do cerrado.

— Vamos pegar esses malditos e mostrar que ninguém deve ser meter com o Barão — ele tinha o estranho costume de falar de si mesmo na terceira pessoa.

— ‘nhor, não tem rastro algum, já passei pelas redondezas tudo e só vejo marca das chamas e nada mais. — Disse caboclo Chico, um escravo que sempre morou na região. Barão ordenou-o que participasse das buscas por saber que ninguém mais conhecia a mata e seus segredos igual a ele.

— Então quer dizer que saíram voando?

— Não sei ‘nhor, masé estranho. Num deixaram marcas. De todo jeito essa sempre foi uma terra de coisa estranhas.

— Não me venha com essas suas superstições, trate de achar por onde esses bandidos foram ou verá do que um Rodrigues é capaz. — Acelerou sua montaria até seus homens que cortavam o mato para avançar.

— Pai, já está escurecendo, não seria melhor voltarmos? — Falou o jovem Tadeu Rodrigues que até então apenas observava tudo calado. Era esguio, tinha a voz doce e o rosto carregado de espinhas com um ralo bigode.

— Não! De forma alguma volto sem que peguemos quem ousou atacar minha fazenda. Como respeitarão o Barão Rodrigues se este não for capaz de fazer justiça em seu próprio território? Largue de frescura e vamos em frente!

Depois do jovem Tadeu, a baronesa Maria Luiza deu a luz a cinco meninas, e mesmo sendo o único filho homem, ele não era muito querido pelo rude pai. Certo dia o Barão passava perto da senzala quando escutou caboclo Chico chamando seu filho:

— Aprochegue-se Tatá, que vou contar mais uma história das boa.

— Tatá? Que intimidade é essa? — Rodrigues saiu puxando Tadeu pela orelha e apontando para o caboclo ordenou a um jagunço:

— Leve esse escravo bocudo para o tronco para aprender onde é o lugar de um negro!

Tadeu chorou escondido enquanto escutava os gritos do velho no pátio, açoitado por causa de um simples apelido, aliás apelido esse que o jovem adorava, pois segundo o caboclo, Tatá na língua indígena significava: fogo. No mesmo dia Tadeu foi arrastado pelo pai até o Bordel da Amélia onde o Barão bradou para uma mulher ruiva:

— Esse menino está delicado por demais, são os mimos da mãe, transforme-o em homem e não me apareçam com nenhum bastardo.

Apesar de estar prometido para casar no próximo ano, para o pai o jovem continuava afeminado. Mas, o velho escravo conhecia o valor de Tadeu, certa vez enquanto ensinava-o a dança de pula-fogueira, o menino caiu nas chamas, desesperado caboclo Chico queimou-se para salvá-lo e ficou impressionado que Tatá não ficou sequer com uma marca do fogo. Guardaram aquele segredo, do contrário, o escravo iria parar no pelourinho.

Era visível que o pai não suportava o jeito do filho, o rapaz preferia ler poesias do que sair para caçar, escrever do que a boêmia, e ficar com as irmãs ao invés de praticar tiro com o pai. Por isso quando partiram, Barão Rodrigues exigiu a presença do filho:

— Faz cinco anos que te larguei na Casa da Amélia para que deixasse de ser uma criança, agora você virá comigo e se tornará um homem de verdade. Aprenderá a matar!

— Mas, pai…

— Pegue suas coisas, partiremos ao amanhecer.

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Tinha escurecido e todos estavam cansados de vagar pela mata quando o caboclo falou:

— ‘nhor, é melhor a gente acampá.

— Você está certo, Chico. — Antes que o Barão desse a ordem Pedro falou:

— Meu senhor, aqui é um bom lugar para acampar, mas se me permitir formarei um grupo de batedores e avançaremos, pois precisamos garantir a segurança.

— Uma ótima ideia, Pedro, e muito corajosa. Pegue os homens que precisar e faça isso. — O jovem saiu chamando alguns nomes que o seguiram prontamente. Era possível ver a raiva no rosto de Tadeu enquanto olhava Pedro sumir na escuridão. Todos comentavam que o rapaz era um filho bastardo do Barão com Amélia, ele nunca admitiu tal fato, aliás ninguém nunca teve coragem de perguntar, no entanto, ele sempre tratou o jovem melhor que o próprio filho legítimo. Pedro era o contrário de Tadeu, alto, forte, corajoso, galanteador, mas era um bastardo, e esse pensamento consolava o jovem herdeiro.

Montaram o acampamento, fizeram uma fogueira e por horas ficaram escutando as histórias do caboclo. Um dos que montavam guarda gritou:

— Senhor, vem vindo alguém, acho que deve ser o Pedro. — Quando todos se levantaram os tiros começaram. De dentro da mata ouvia-se disparos na direção do acampamento. Tadeu tentou correr, mas foi atingido no abdômen, caboclo Chico veio em seu socorro, os homens do Barão foram caindo um a um, já que não conseguiam ver onde estavam os inimigos, Rodrigues foi o último, levou um tiro na perna e foi se arrastando em direção do filho e do escravo. Nesse momento os inimigos saíram da mata, e o líder deles riu com o olhar de espanto dos sobreviventes.

— Queimem os corpos. — Ordenou Pedro aos seus homens.

— Você? — Gemeu o Barão — Mas, você é meu filho. Eu o reconheci, o tornei meu herdeiro! — Gritou e depois olhou com vergonha nos olhos para Tadeu, que parecia não acreditar no que ouvia. Pedro sorrindo, agachou-se ao lado do rapaz e sussurrou em seu ouvido:

— Você sempre foi uma vergonha para seu pai. Não achou que ele deixaria que você arruinasse tudo que ele conquistou?

Tadeu chorava, não mais de fraqueza, derramava lágrimas do mais puro ódio, assim reunindo suas últimas forças partiu para cima de Pedro, mas estava baleado e era fraco, levou uma grande surra enquanto todos gargalhavam.

Barão estava ajoelhado, ainda incrédulo. Tentou pegar uma arma que tinha ficado caída no chão, porém Pedro atirou em sua cabeça e falou com orgulho:

— Agora, sou o novo Barão!

Tadeu estava desesperado, mesmo sendo rejeitado, amava o pai. Com crueldade no olhar, Pedro foi até ele e incendiou suas roupas. O jovem começou a rolar no chão, gritava tentava apagar o fogo, mas não conseguia. Caboclo Chico tentou ajudá-lo e foi baleado, caiu encostado em uma árvore. Pedro e seus homens riam com a cena. Mesmo fraco Tadeu corria, porém as chamas aumentavam. O jovem era mais resistente do que imaginavam e a morte parecia não quere-lo. Ficou muitos minutos sendo consumido pelo fogo. Não gritava mais. As expressões de diversão dos presentes viraram espanto e depois medo. A luz vinda do corpo em combustão era tão forte que ninguém mais conseguia olhar por muito tempo. O corpo permanecia em pé, sem qualquer ruído. Caboclo Chico por um momento esqueceu a dor do ferimento e olhava aterrorizado. As chamas queimaram de uma forma que não se via mais qualquer vestígio de Tadeu, existia apenas um fogo parado e flutuante no meio da mata.

Pedro tremia, não sabia o que fazer, e quando finalmente correu para sua montaria, sendo imitado por seus homens, uma grande labareda começou a mover-se em volta do acampamento, era rápida como o vento, jagunços começaram a atirar desesperadamente, no entanto, em alguns minutos todos corriam e rolavam tentando apagar o fogo que consumiam suas carnes. Queimavam rapidamente ficando apenas carcaças estiradas no chão.

Assim como o Barão foi deixado para morrer no final, Pedro ficou sozinho, caído, implorando misericórdia enquanto a uma língua de fogo aproximava-se. Ele começou a queimar lentamente, perna por perna, braço por braço, tronco e cabeça.

Chico ainda estava encostado na árvore assistindo a tudo. Também foi tomado pelo pânico quando o fogo se aproximou movendo-se como uma grande serpente. E, diante do velho escravo, as chamas transformaram-se na figura de um homem, quase transparente, que estendendo a brilhosa mão tocou-o sem queimar. O ferimento do escravo foi curado na hora e uma voz falou-lhe:

— Adeus meu velho amigo. — Ainda com medo, mas sorrindo, o caboclo respondeu:

— Adeus Tatá… Boitatá!

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