Dica de leitura: Neon Azul de Eric Novello

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Até agora eu não era um leitor de Urban Fantasy, mas em minhas “andanças” pelo ONE (O Nerd Escritor) sempre tinha minha atenção roubada dos contos para um banner, azul e brilhante, estampando um misterioso homem de terno. Era a magnífica capa do Neon Azul do escritor Eric Novello. Coloquei-o na minha lista de leitura, porém fui procrastinando, até que, querendo variar meu foco literário comprei e comecei a ler.

 Sinopse

Um homem que não dorme nunca. Um advogado com um cramulhão na garrafa. Um assassino que atravessa espelhos. Um escritor que não consegue prender seu personagem no papel. Esses são alguns dos frequentadores de Neon Azul, um bar diferente para cada cliente. Escolha o seu lugar, faça o seu pedido. Depois do primeiro drinque, você jamais será o mesmo. Neon Azul é uma boate onde habitam os seus mais sombrios desejos e tentações. É um lugar diferente, repleto de acontecimentos estranhos, mas que poderia estar na esquina da sua casa ou no caminho entre o trabalho e o metrô. Acompanhe a história do inferninho e de seus clientes peculiares, e descubra que realizar seus desejos pode ter efeitos colaterais imprevisíveis. Homens de negócio, prostitutas, artistas e boêmios imersos em uma solidão que só quem passeia pela noite já experimentou; um sentimento comum aos que vivem cercados de gente, com um sorriso no rosto e um copo na mão. Nesse jogo de luzes e sombras que revela a fantasia e encobre a realidade, está nas mãos do leitor a decisão de acreditar ou não no que lê e decidir quem conta as verdades e as mentiras ao longo da história. Assim como o insone gerente do bar, o leitor terá muito o que lembrar quando deitar na cama e fechar os olhos por própria conta e risco

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Logo no início a leitura transmutou-se em apreciação. Fui cativado. Quando busquei por uma história urbana procurei encontrar a transformação de fatos cotidianos que, muitas vezes são imperceptíveis, em ações de grande importância. E foi assim quando o mendigo Oscar narrou:

Preciso de um segundo de sua atenção e uma nota qualquer. Coloque na latinha de cerveja. Fui eu que arrancou a tampa, raspando no paralelepípedo até lanhar os dedos. É besteira, mas dá orgulho na primeira vez que se consegue. (pag. 10)

Nunca consegui fazer esse sonhado copo de latinha, portanto, naquele momento invejei o orgulho do mendigo e não consegui mais desgrudar das páginas.

É através dos olhos de Oscar que passamos a conhecer o Neon Azul, de fora para dentro. Devido ao formato do livro, um romance fix up, temos a impressão de estarmos diante de uma coletânea de contos, porém aos poucos as ligações dos personagens vão aparecendo. Há narrativas na terceira pessoa, livre e em primeira pessoa. Todas desvendando universos pessoais e levando-nos a compartilhar medos, sonhos, dúvidas e coisas mais sombrias.

Mas, o que é o Neon Azul? Essa pergunta que afligiu-me e que certamente já vagueia por sua mente, também dominou o personagem Lucas Mogiene ao depara-se com o lugar. Lucas, um escritor que peneja com paixão sobre histórias de inferninhos cariocas (alter ego de Eric Novello?), questiona um dos seguranças que guardam a entrada:

 —  Que negócio é esse? Casa de termas? Sauna mista?

—  Uns dizem que é um piano bar, outros dizem que é boate. Tem gente que prefere dizer em casa que é restaurante. Eu prefiro dizer que é melhor que tudo isso junto. ( pág. 109)

À medida que avancei pela obra fui buscando quem poderia ser o personagem principal, ou os personagens, no entanto, não encontrei tal característica nem em Oscar, Armando, nem mesmo no O Homem (sim em maiúsculo mesmo). E aí está o maior trunfo de Eric Novello: O bar Neon Azul é o personagem principal. É ele que liga todas as teias. Sem o Neon não há as histórias magníficas, restando a todos apenas a triste rotina de uma grande cidade.

Há um frase  do personagem, O Homem, que fala sobre o poder do Neon Azul:

 Cada um enxerga o Neon de uma maneira diferente. E nós temos obrigação de ser tudo o que os clientes querem enxergar (pág. 99-100)

Lendo algumas resenhas pela net vi que esse poder de mutação estende-se além dos personagens e passa aos leitores do livro. Eu por exemplo, enxerguei o bar Neon Azul como algo semelhante à ilha de Lost (esquecendo o significado dela no final da série, claro); da mesma forma que a ilha atraía e moldava muitas das vidas que ali viviam (ou que lá foram parar) e tinha um poder de prendê-las nela, assim é o Neon. Atraindo, envolvendo e causando uma dependência sobrenatural. O Neon Azul é magnetizador!

Uma citação do personagem Dionísio traduz bem a força gravitacional do bar (e não é o álcool) na vida dos personagens:

 Uma das armadilhas da vida é que uma pessoa pode ser incapaz de mudar o próprio destino, e ainda assim ter uma influência devastadora sobre o destino de terceiros. (pág 161).

O Neon Azul possui uma influência devastadora sobre todos os que passam pela intensa luz azulada. E, talvez tudo esteja ligado ao poderio do dono do lugar: O Homem (sim, finalmente chegamos no tal).

O Homem. Não se conhece muito sobre ele, apenas aparece com seu alinhado terno branco e chapéu de mafioso. Sabe de tudo e controla tudo e sua presença é inconfundível. O mendigo Oscar narra o que sentiu ao vê-lo:

Da primeira vez que vi o Homem passar, senti uma dor muito forte. Meu peito explodiu e se contraiu violentamente como se o ar tivesse se transformado em pé de cimento… Quase gritei… Mas, esse é o efeito do Homem, é para isso que ele existe. Por isso temos o direito de vê-lo andar entre nós. Para nos lembrar do significado do poder e da diferença entre os que o têm e os que não. (pág. 13)

Esse é o Neon Azul e seus personagens inesquecíveis. Tudo registrado sob a habilidade descritiva de Eric Novello que transformou um inferninho em um universo gigantesco e fantástico. Um lugar que não é apenas um ponto de encontro ou uma válvula de escape para seus frequentadores. Não. O bar vai além disso, tornando-se uma espécie de um universo paralelo. Uma reflexão filosófica do mendigo Oscar exprimi com perfeição a necessidade da existência do Neon na vida dos protagonistas:

 Só  quem perdeu tudo dá valor a um ponto de referência, mesmo que seja uma esquina na rotina, uma foto guardada na carteira (pág. 10).

E você está pronto para entrar e pedir uma bebida? Mas tenha cuidado, pois as luzes, a música, os drinques e seus frequentadores podem te deixar completamente apaixonado pelo lugar. Eu fiquei.

eric_novelloEric Novello (1978) é um escritor, tradutor, editor, copidesque e roteirista  brasileiro. Escreve livros de literatura  fantástica e realista.

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  • Jenifer Angelo

    Cara, eu acho que vou ler esse livro. Parece muito interessante mesmo!!!

    • Jefferson Nóbrega

      Eu gostei muito e essa semana o Eric informou que a nova edição contém histórias inéditas, acho que até eu terei que comprar de novo hehe.