As árvores na Literatura Fantástica

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A conexão entre a magia e a natureza é algo comum nas histórias de fantasia, mitos e lendas. E nesse simbolismo as árvores têm sido presentes e muitas vezes marcantes, sejam como cenários propícios ou mesmo personagens.

Desde as culturas mais antigas as árvores aparecem como símbolos da  fertilidade e da vida, portanto, não é surpresa encontrarmos elas em histórias como um elemento central no destino da humanidade.

2014-June-Trees-Snow-Tree-by-JohnoftheNorth-194x300Na mitologia nórdica toda a estrutura do universo depende de Yggdrasil, a Árvore de Mundo. Localizada no centro do universo ela ligava os nove mundos da cosmologia nórdica, cujas raízes mais profundas estão situadas em Niflheim, um mundo sombrio onde ficavam várias árvores assombradas e solo onde não se produzia nada, escuridão profunda com gigantes e terrivéis monstros. O tronco era Midgard, ou seja, o mundo material dos homens; a parte mais alta, que se dizia tocar o Sol e a Lua, chamava-se Asgard(a cidade dourada), a terra dos deuses, e Valhala, o local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha.

A ideia da Árvore do Mundo tem sido explorada em muitos cenários de ficção, incluindo Deuses Americanos, de Neil Gaiman As Crônicas de Âmbar de Roger Zelazny, e ainda é representada pela torre da série de Stephen King A Torre Negra. O uso da árvore como uma estrutura unificadora enfatiza a força de conexão da natureza e une todas as fases da vida e da morte em um ciclo.

Os deuses nórdicos realizaram suas reuniões em sua santa árvore, um lugar natural do poder, e dizem ter criado o primeiro homem e a primeira mulher (Askr e Embla) de um freixo e  um olmo. Este conto da origem das pessoas liga a humanidade à estrutura do mundo, dando a impressão de um poder natural concedido a nós pelos deuses, uma ligação cósmica com a natureza e, portanto, uma responsabilidade para com o mundo em que vivemos.

2014-June-Trees-Rebirth-by-Tomasz-Alen-Kopera-234x300A ideia é muito semelhante à figura heroica Gluskap da mitologia indígena norte-americana, que criou os seres humanos atirando uma flecha no coração de uma árvore. Os primeiros homens e mulheres surgiram a partir da rachadura na casca da árvore. Na história da criação dos persas há uma representação mais horrível do ciclo de vida. O conto diz que uma árvore cresceu a partir do cadáver em decomposição do primeiro ser humano, que, em seguida, foi dividida em um homem e uma mulher. O fruto da árvore tornou-se então as outras raças da humanidade.

Em outros contos e sistemas de crenças, as árvores aparecem como mais do que um símbolo da própria vida, simbolizando também a sabedoria e a importância da natureza. No cristianismo, no Jardim do Éden está a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. No livro de Gênesis, Deus proíbe os primeiros seres humanos, Adão e Eva, de comerem o fruto de qualquer árvore. Quando eles são tentados a desobedecer e provar o fruto da Árvore do Conhecimento, Adão e Eva são introduzidos no pecado, na vergonha, na culpa e livre-arbítrio e, são banidos antes que possam experimentar das delícias da Árvore da Vida, o que os tornariam imortais.

Na ficção, as interpretações da Árvore da Vida muitas vezes aparecem como uma recompensa para um herói, ou são cobiçadas pelos vilões. Ambos ocorrem (sequencialmente) em As Crônicas de Nárnia no livro O Sobrinho do Mago, quando Digory pega uma maçã que ele deve enterrar para salvar Nárnia, e a Feiticeira Branca come uma para ganhar a imortalidade. CS Lewis espelha a escolha de Adão e Eva no Éden e  Digory é tentado por si mesmo a comer a maça, mas ele consegue resistir.

2014-June-Trees-Silver-Apple-Tree-by-magdalenawanli-300x284Enquanto a queda do homem geralmente é pintada como um evento negativo, o conto traz uma sugestão de que ambas as árvores são símbolos significativos na interpretação humana da vida. A Árvores do Conhecimento simboliza a mortalidade humana, bem como o erro humano e, claro, o conhecimento e a sabedoria para fazer a escolha certa no futuro. A Árvore da Vida representa o estado incorrupto da humanidade antes da queda e enfatiza o pecado original porque parte da punição é o conhecimento de que o seu fruto tem o poder da imortalidade, mas está fora de alcance.

Uma história semelhante da mitologia Micronésia sugere que, em sua Eden-equivalente cresceram duas árvores que foram guardadas por uma criatura chamada Na Kaa. Os homens viviam sob uma árvore e mulheres sob a outra. Um dia, quando seu guardião saiu em uma viagem, os homens e mulheres se reuniram debaixo de uma das árvores. Quando Na Kaa voltou, disse-lhes que tinham escolhido a árvore da morte em vez da árvore da vida e é assim que a humanidade se tornou mortal.

Essa divisão entre a árvore da vida e a árvore da morte é muitas vezes representada na fantasia e ficção, mas, como a vida e a morte são duas partes de um todo, a representação é frequentemente feita por uma única árvore. Contos de Buda dizem que ele alcançou a iluminação debaixo da Árvore de Bodhi, que supostamente inspirou as árvores de A Roda do Tempo  série de Robert Jordan. As grandes árvores de Jordan emanavam uma sensação de paz para aqueles que passavam debaixo de seus ramos, e o poderoso elo simbólico entre a natureza e o preço do conhecimento a partir do conto do Éden e outras histórias míticas também é evidente. Um personagem é “enforcado por conhecimento” no ramo da última, Avendesora, um evento que foi inspirado no deus nórdico Odin, que se enforcou em um ramo de Yggdrasil para adquirir conhecimento dos mortos.

2014-June-Trees-Bodhi-tree-by-TheGreatGod-200x300Tendo toda essa simbologia entre a morte a vida, as árvores tornam-se muito importantes. Sendo a fantasia um reflexo do mundo real, a destruição de árvores e florestas nas histórias, representam o declínio da natureza e do aumento da industrialização humana. Esse é um conceito cada vez mais abordado na fantasia principalmente em vista do aumento populacional e da poluição global. Tal abordagem é nítida em O Senhor dos Anéis de J.R.R Tolkien.

Os Ents de Tolkien é uma raça de árvores de gigantes cujo papel na Terra Média é proteger as florestas da destruição. Tristemente eles não podem se reproduzir porque perderam suas entesposas, sendo isso  um dos símbolos do fim da era da natureza e da magia e a ascensão dos homens, mas eles fornecem uma personificação literal da batalha entre natureza e a indústria, quando se unem para proteger a floresta de Isengard.

Esse tema aparece de formas variadas e até comum. Podemos citar a árvore Avendoraldera, uma muda de Avendesora, que começa uma guerra sangrenta no A Roda do Tempo, ou ainda as árvores, plantas e flores da trilogia Mistborn de Brandon Sanderson e os represeiros de Westeros, que antes eram adorados e reverenciados, mas são praticamente dizimados pelas novas religiões e seu povo empurrado para além da Muralha em As Crônicas de Gelo e Fogo de George RR Martin.

Por fim, as árvores são um símbolo de magia natural (ou natureza mágica) que podem ser utilizadas pela humanidade para criar um mundo melhor. Em O Silmarillion de Tolkien as duas árvores de Valinor, Telperion e Laurelin, eram a fonte de luz para o mundo. Após sua destruição de ambas, suas flores e frutos tornaram-se a lua e o sol.  No folclore em todo o mundo, as árvores e as florestas fornecem casa e abrigo para muitos seres mágicos, incluindo dríades e ninfas, que usam seus poderes para o benefício da natureza.  Temos como exemplo o folclore brasileiro, por ser lendas indígenas, é completamente baseado nas florestas brasileiras.

 Assim vemos que algo que às vezes passa despercebido dos nossos olhos é peça fundamental para a Fantasia.

Clique aqui e leia a Parte 2 onde veremos as árvores como personagens e cenários do gênero fantasia.

Fonte: Fantasy-Faction com adaptações e acréscimos de informações por nós Kalango Atômico.

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