As árvores na Literatura Fantástica – Parte 2: Árvores Personagens

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Na primeira parte desta série, analisamos o simbolismo das árvores na literatura de fantástica. Discutimos o papel das árvores individuais em mitologias e histórias da criação, também abordamos o desmatamento como uma representação do declínio da natureza, sendo as árvores nesse processo, um símbolo da perda de magia natural.

Como vimos até agora, as árvores no mundo mitológico – como a interpretação dos nórdicos com Yggdrasil – tornaram-se imagens arquetípicas que representam o ciclo natural da vida e da morte. Estas árvores, reverenciadas através de seus nomes individuais, biografias e rituais espirituais, são conhecidas de maneira tão íntimas que muitas desenvolveram suas próprias personalidades desempenhando seu papel na história ou mito. Com isso em mente, não é surpreendente que tantos autores de fantasia e contadores de histórias se debrucem sobre as as árvores como símbolos de sabedoria, conhecimento e poder natural, para criar personagens dentro de suas ficções.

2014-JUL-Trees-Wizard-of-Oz-Apple-Tree-300x225Árvores sencientes têm aparecido em várias formas ao longo de todos os tipos de contos, cumprindo muitas vezes o papel de sábias conselheiras. A Vovó Willow do desenho Pocahontas  da Disney, é um exemplo clássico desse tipo de personagem; a árvore tem um rosto retorcido e animado, uma capacidade limitada para mover raízes e cipós e para gesticular e desarmar as pessoas quando necessário. É uma árvore muito sábia, a ela Pocahontas pede conselhos e opiniões, ela sempre ajuda a protagonista a escutar o seu coração, é meio grossa, mas é uma árvore leal e companheira.

Essas Árvores Falantes na Fantasia, são uteis para o fornecimento de informações e orientações aos protagonistas. Também servem como instrumento para propagação de notícias podendo ser bastante fofoqueiras como nas histórias ifantis de Enid Blyton. Elas também são uteis para ensinamentos/lições de moral, como por exemplo, quando Dorothy em O Mágico de Oz, tenta arrancar uma maçã e leva um tapa da árvore sendo censurada: “O que você ia achar de alguém que viesse arrancar algo de você hein?”. O uso de árvores falantes leva a história a uma atmosfera mágica e ainda permite que o herói possa participar e ser parte dessa magia.

Na Mitologia Grega, as árvores do Bosque de Dodona têm a capacidade de profetizar. Quando elas foram cortadas para a construção de Argo – o navio em que Jasão e os Argonautas navegaram  com a missão de recuperar o Velocino de Ouro – a madeira manteve essa capacidade profética e foi capaz de avisar a tripulação da calamidade iminente, uma ideia que a escritora Robin Hobb explora vagamente em sua trilogia Liveship Traders.  Esse tema também é trabalhado por George RR Martin em As Crônicas de Gelo e Fogo, onde as Árvores Coração retratam um rosto para que os velhos deuses possam testemunhar eventos importantes através de seus olhos.

2014-JUL-Trees-Green-Man-by-Brian-Froud-225x300Por causa do motivo comum discutido na primeira parte – que a ocorrência de desmatamento, muitas vezes representa o declínio da natureza e da origem da civilização, e, portanto, o mal é denotado como o que destrói a natureza –  somos inclinados a pensar em árvores como personagens “bons”, no entanto a coisa não é tão simples assim.

O Velho Salgueiro-Homem, uma árvore da Floresta Velha, próxima ao Condado na Terra-Média de J.R.R Tolkien, é um personagem mal-intencionado que pode ter sido uma vez um Ent ou Huorn. O ódio do Velho Salgueiro-Homem de “coisas que andam” influenciou as outras árvores, tornando a floresta um perigo para qualquer transeunte de duas pernas.  Em uma cena famosa que ficou de fora do A Sociedade do Anel no cinema, os quatro hobbits são atacados na terrível Floresta Velha pelo Velho Salgueiro-Homem. Ele “canta” até que os hobbits fiquem sonolentos, e então prende Merry e Pippin entre seu tronco e empurra Frodo dentro do rio. Sam, o único acordado, chama por ajuda e quem os salva é ninguém mais ninguém menos que Tom Bombadil.

Outra árvore famosa, o Salgueiro Lutador de J.K.  Rowling da saga Harry Potter, não apresenta fala e não sabemos se tem consciência para que realmente passamos dizer que é “mau”, mesmo assim, demonstra ser um obstáculo para punir personagens que cruzam seu caminho. O Salgueiro Lutador reage violentamente a qualquer um ou qualquer coisa que fique ao alcance de seus ramos, usados para bater nos invasores sem um sentido claro. A sua natureza brutal é aproveitada para trabalhar como um disfarce naturalista; ele foi plantado quando Dumbledore tornou-se diretor da escola, com propósito de ajudar o jovem Remus John Lupin (que fora mordido e transformado em lobisomem) a transformar-se, em todas as luas cheias, sem que oferecesse perigo a nenhum dos outros alunos. Lupin utilizava uma passagem, por baixo das raízes da árvore, para chegar à Casa dos Gritos onde se transformava e permanecia até voltar ao normal, assim, Rowling explora a árvore como uma guardiã e demonstra o poder dos recursos naturais e sua ligação com a magia em seu mundo.

2014-JUL-Trees-Fangorn-by-thalion-art-173x300Em em “Jonathan Strange e o Sr. Norrell” de Susanna Clarke, o Corvo Rei disse ter encantado as florestas que cercam sua capital no Norte da Inglaterra para atuar como exércitos. As árvores desta história são capazes de formar alianças e devorar qualquer um que está contra seu lado, tornando-se um exemplo extremamente perigoso da conexão entre natureza e magia.

Muitas vezes, as árvores terão os mesmos dilemas morais como dos humanos – embora talvez com prioridades diferentes – porque seus destinos entrelaçados obrigam ambas as espécies interagirem, como os Ents de Tolkien e as árvores da Floresta de Fangorn em sua marcha contra Isengard . Ocasionalmente, no entanto, a natureza e os mundos “civilizados” também colidem quando encantamentos transformam, ou os colocam dentro humanos das árvores.

Um dos contos da queda de Merlin na lenda do Rei Artur diz que, como resultado da queda, ele ficou aprisionado dentro de uma árvore. Na mitologia grega, a ninfa Dafne foi transformada em um loureiro por seu pai quando ela pediu para permanecer solteira.

Em outros casos, seres mágicos simplesmente habitam árvores, de tal forma, que elas se tornam a realização física da criatura. O melhor exemplo disso é Cthaeh  da “A Crônica do Matador do Rei” de Patrick Rothfuss. Terrível e malicioso, Cthaeh é um ser onisciente, que influencia as pessoas e leva à destruição e sofrimento, dizendo-lhes os seus futuros inevitáveis. À espreita invisível nos ramos de uma árvore gigante no reino fae, a criatura utiliza os atributos simbólicos de árvores para atrair vítimas inocentes e, portanto, parece ainda mais sinistra para o leitor como um resultado.

Um dos personagens secundários mais eficazes na ficção é o da multidão, ela enquanto grupo ou mesmo mentalidade é uma força que não passa despercebida. Como um coletivo, florestas e bosques na fantasia também desenvolvem suas próprias personalidades, combinando as várias as características individuais das várias árvores e criando forças naturais intensas, “boas” ou “más”, que podem fortalecer  de maneira significativa a obra.

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A Floresta Verde da Terra-Média ficou conhecida como a Floresta das Trevas, quando a coisas más começaram a influenciar as árvores modificando inclusive sua aparência em uma amostra desse poder de coletividade. Em contra partida as árvores de  bosques encantados da literatura infantil, são uma influência de proteção e carinho, partilham de alguma forma seus segredos para protegerem a si e aos protagonistas. Em As Crônicas de Gelo e Fogo, a floresta Para Lá da Muralha é dura e indomável, cada árvore dela e carrega em si as memórias de uma era passada repleta de magia gerando todo o poder da floresta da Floresta Assombrada.

Com tudo isso, vemos nessa segunda parte que as árvores de nossas histórias favoritas se tornam personagens em seus próprios mundos, afetando as tramas através de sua presença e do que representam.

No capítulo final, vamos discutir árvores como partes da criação dos mitos, folclores e ficções fantásticas.

Esse artigo teve como base o texto do Fantasy-Faction com adaptações e acréscimos de informações por nós Kalango Atômico.

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  • Gabriel Lacerda

    Pow, faltou a Deku Tree de legend of zelda.

    • Jefferson Nobrega

      Deku Tree não se enquadra na categoria “Literatura Fantástica”, só se levarmos em conta a literatura surgida em torno do jogo. Ou estou enganado e a série de jogos foi baseada em algo na literatura japonesa?