A violência em universos fantásticos é menos confrontadora?

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A violência é parte marcante da Literatura Fantástica e seus mundos. A Alta Fantasia é justamente caracterizada por suas grandes batalhas épicas, combates de espadas, armas mágicas, heróis contra vilões impiedosos no choque constante do bem contra o mal. Já as obras da Baixa Fantasia são povoadas de seres sobrenaturais com sede de sangue. Embora nem todas as histórias da Fantasia envolvam uma gama alta de violência é raro que não haja nenhuma.

Mesmo sendo presença constante, é inegável que a violência em obras de fantasia é menos impactante que em outros estilos, ela é inclusive esperada. Meios de comunicação até usam disso para classificar histórias de fantasia como de faixas etárias mais baixas, mesmo tendo um certo teor violento.

Até certo ponto, isso faz sentido: mundos de fantasia são tão alheios de nossa própria realidade que é mais fácil distanciar-se do impacto de seu conteúdo. As pessoas que dizem “eu não posso lidar com a violência nos filmes”, não pensam em imediato nas batalhas e esfaqueamentos que viram em filmes de fantasia. No entanto, o assunto é mais complexo, especialmente quando se examinam exemplos modernos.

A Violência na Alta Fantasia

Se você der uma olhada na fantasia épica tradicional, é fácil ver por que a violência pode parecer menos perturbadora. A violência em que se envolve os personagens que povoam esses mundos fantásticos é importante em seu efeito simbólico e dramático. A atenção, nessas obras, não recaem com foco na crueldade ou no sangue derramado, mas na tragédia, no triunfo do personagem ou a na queda do inimigo.

Kalango Atomico Boromir

Peguemos como exemplo o arquetípico de O Senhor dos Anéis: quando Boromir cai, não é em seu sofrimento que nos concentramos, mas no seu nobre sacrifício. À medida que nossos heróis matam os Uruk-hais por todos os lados, nós pensamos apenas na gloriosa derrota deles. Já na cena em que Gimli e Legolas disputam quem mata mais, as mortes são apenas medidas de habilidades. Outros livros de fantasia, filmes e séries de TV trazem cenas semelhantes, percebam como as mortes em As Crônicas de Nárnia não são chocantes em violência, o mesmo em Harry Potter, quando Cedrico Diggory é morto, não é o ato de violência que choca, mas a dor da derrota de Harry Potter e de todos os presentes, inclusive o foco da cena está no retorno de Voldemort e não na morte em si.

Não me interpretem mal, muitas dessas fantasias contêm cenas verdadeiramente violentas, com pessoas morrendo de dor – esses mundos não são lugares felizes e sem problemas. No entanto, elas não nos horrorizam da forma como um filme sobre guerra ou crime, por exemplo, quando o contexto está muito mais perto de nós. Mesmo as fantasias urbanas como Anjos da Noite e Van Helsing, que estão cheias de sangue e mortes, parecem nos separar da violência, talvez devido à natureza sobrenatural e má dos personagens e os cenários fictícios com sua luta de bem x mal. Outros sub-gêneros e tipos de fantasia, no entanto, contam uma história diferente.

A Baixa Fantasia

Já a Baixa Fantasia nas últimas décadas tem produzido livros e filmes em mundos bastante sombrios.Vários dos seus subgêneros como a DarkFantasy, Urban Fantasy, a Mythic Fiction (onde está Game Of Thrones) e etc; oferecem mundos bem mais próximos da realidade (quando não se passa no mundo real) passando bem longe dos mundos “preto e branco” da Alta Fantasia. E essas histórias muitas vezes colocam a brutalidade e a crueldade no centro do palco.

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Nelas testemunhamos muitas vezes a violência em seu próprio fim: um vilão feliz, torturando pelo simples prazer, um guerreiro que faz questão de cortar todo seu inimigo antes de matá-lo, um estupro (que por si só é brutal). Diferente da Alta Fantasia, essas cenas podem não ter um significado superior ou o simbolismo para nos apegarmos, e os personagens que sofrem não são sempre bestas desumanas, nem heróis nobres e heroínas que morrem com dignidade. Mesmo os exemplos atuais de fantasia heroica mais tradicional são muitas vezes tingidos com uma nota ligeiramente mais sombria- talvez em consonância com uma tendência moderna. Atualmente, o exemplo mais famoso deste estilo de violência na fantasia é Game of Thrones (As Crônicas de Gelo e Fogo). Várias cenas na série são verdadeiramente perturbadoras, mesmo não retratadas no mundo real. Como por exemplo o divertimento de Ramsay Bolton ao torturar Theon Greyjoy e, até a forma como Ramsay foi morto na Alta Fantasia não teria espaço.

Outras histórias sombrias, como Spartacus, mostram uma prontidão igual para permanecer na violência e tê-la como foco. Esses estilos de fantasia (com fundo históricos reais) desafiam a noção de que a violência é de alguma forma menos difícil e “real” por causa de seu contexto de fantasia.

Imaginando novas fomas de chocar

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Há outra questão interessante em tudo isso: a violência da fantasia pode ser mais perturbadora do que a violência de uma história que adere às leis da realidade?

O gênero permite que os escritores explorem coisas que seriam impossíveis no mundo real, o que implica encontrar novas formas de crueldade. A ficção científica talvez seja mais prática nisso, por exemplo, algumas das cenas mais perturbadoras de 1984 e de Jogo Vorazes, ou ainda a tortura psicológica dos personagens do filme “O Preço do Amanhã“. Mas também há fantasias onde a magia do mundo onde é ambientada a história permite um tipo especial de crueldade não seja possível no nosso. Por exemplo, um dom da vida eterna pode facilmente ser transformado em uma maldição de sofrimento eterno. Um personagem que pode curar magicamente pode ser torturado de forma infinita e criativa.

Veredito

As cenas violentas em contos de fantasia são mais fáceis ao estômago que as de outros gêneros?

Quando esse assunto foi discutido no Fantasy-Faction o consenso é que o choque que a violência causa na fantasia está diretamente ligado ao quanto o mundo apresentado está próximo da nossa realidade. Particularmente concordo, mas com ressalvas. A violência na fantasia vai chocar dependendo da maneira que ela é apresentada, por exemplo, a morte de Robb Stark foi chocante não apenas pela violência, mas pelo seu significado, da mesma forma que na mesma cena Catelyn Stark corta o pescoço de Joyeuse Erenford que era inocente, mas isso não pareceu tão chocante ao público diante de todo o contexto. Portanto, o que define se a violência na Fantasia será mais aceita é sua forma de apresentação e seu significado, o que não difere muito do que acontece na Alta Fantasia, só não é tão explicito como nos outros subgêneros.

E você sente-se menos atingindo quando a violência é na fantasia que em uma história baseada em fatos reais?

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