Zootopia e como a Disney continua evoluindo suas animações

Zootopia_Soundtrack

Um pouco antes de ver esse filme, uma pessoa me informou que não era nada demais e a cena mais engraçada do filme era a do bicho-preguiça que aparece no trailer. Isso me deixou meio cabreiro e já comecei com aquele pensamento idiota: “ahhhhh, saudades das animações raiz da Disney. Bom era no tempo de Tarzan e Rei Leão”. Filmes como esses dois fizeram o gênero de animação se tornar um motivo para ir no cinema, atraindo grandes públicos, de todas as idades. Mas de uns tempos pra cá, tive a sensação que as animações estagnaram, com produções fracas como Enrolados e Operação Big Hero. Daí parei pra pensar, após terminar de ver Zootopia e percebi que elas não estagnaram mas tiveram que se adaptar aos novos paradigmas do público que não é o mesmo de vinte anos atrás.

As crianças hoje tem acesso a muita informação e, principalmente, são muito independentes para acessarem essa informação. Além disso, você tem produtos de grande sucesso como Minecraft e Don’t Starve que estimulam o lado “engenharístico” das crianças, fazendo com que o argumento “isso aconteceu por causa da magia” ou “isso é por que é e sempre foi assim” não cole muito bem com esse público. Dessa forma, produtoras como a Disney tiveram que se adaptar na forma que entregariam a mensagem principal das suas animações para os menores, justificando os acontecimentos do roteiro. E essa mensagem também mudou: antigamente a amizade, família, romance, bullying, eram os temas principais do filme. Esses temas não deixaram de serem válidos, mas chegou a hora de dar foco para outras coisas que agora há a liberdade e a necessidade de serem abordados, então o feminismo, igualdade de gêneros, pluralidade e discriminação ética são a mensagem de hoje. E a Disney acompanhou isso.

você já deve estar familiarizado com essa imagem

Você já deve estar familiarizado com essa imagem

Em Zootopia, somos apresentados a um mundo dominado por animais com consciência. Pelo que é sugerido, nunca existiram humanos e os animais criaram uma sociedade mista de predadores e presas que evoluíram a um ponto de não precisarem mais serem um o jantar do outro, mas ambos vivem em cooperação numa cidade similar a NY. A protagonista do filme é Judy Hopps, uma coelha que nasceu numa região do interior numa família produtora de cenouras, mas que tem o sonho de sair de lá e se tornar oficial de polícia na capital. Sua família discorda dessa decisão, por achar que é muito perigoso e essa é não é uma profissão de coelhos, desestimulando ela de seu sonho e incentivando ela a buscar a opção mais segura e não o que ela quer. A Disney mostra o por que de fazer animações para a família inteira, pois essa é uma discussão válida pra criança que tem um sonho grande, pro adolescente que quer fazer artes cênicas ao invés de engenharia ou direito, pro adulto que não quer prestar concurso público e quer abrir sua própria floricultura e pro idoso que quer fazer a faculdade que nunca teve chance. Somos desestimulados a vida toda e em todas as idades. Boa sacada da Disney.

Primeira coelha policial de Zootopia

Primeira coelha policial de Zootopia

Além dela, uma raposa malandra chamada Nick forma sua dupla e parceira durante a aventura. A interação dos personagens é bem feita, sendo ela muito correta e “by-the-book” e ele o espertão que faz o que é preciso pra sobreviver na cidade grande. Além disso, você tem a abordagem da raposa ser a predadora natural dos coelhos, e a forma que foi trabalhada essa premissa foi o grande mérito da Disney. Durante todo o filme, somos apresentados a situações onde predadores e presas interagem, mas cada uma carregando seu preconceito interior de “eu não vou me meter com essa espécie, pois ela me comia no passado, não é confiável” e “essa espécie era minha presa no passado, eu sou superior a ela desde sempre”. O preconceito velado e as vezes escancarado, é a pedra em que esse filme se constrói e é muitíssimo bem trabalhada: Israel x Palestina, Judeus x Muçulmanos x Cristãos, àrabes x o ocidente, negros/latinos x brancos, homo x hétero.

A cidade é dividida em biomas diferentes para suas respectivas espécies.

A cidade é dividida em biomas diferentes para suas respectivas espécies

 

A discriminação e segregação pela sua origem é o desafio a ser vencido nesse filme, assim como nos paradigmas atuais e a animação consegue apresentar isso de forma simples para crianças e profunda pra adultos e entrega uma mensagem importante e válida, sem perder a qualidade do roteiro. Adicionalmente, a Disney é a Disney, então há personagens muito carismáticos, boas cenas de comédia e um bom plot-twist. Senti falta de uma forte trilha sonora, mas isso é algo que falta há uns bons anos nos seus filmes. Acho que desde A Princesa e o Sapo não há uma trilha sonora merecedora de Oscar, mas isso não prejudica em nada o filme. Enfim, vale a pena o ingresso, de toda a família, e agradeço pela Disney mostrar coragem para evoluir em seus temas.

 

8/10.

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  • Flávia Nader

    Pelo visto você não conhece muita coisa sobre a Disney por várias coisas que citou no seu texto.
    Muito pelo contrário do que você disse, a Disney voltou a fazer bons filmes musicais desde “A Princesa e o Sapo”. Até porque eles não faziam um musical bom desde o final dos anos 90, só que o que acontece agora, é que alguns filmes são musicais como Enrolados, Frozen, e outros já não são, como Zootopia, Big Hero 6.
    Enrolados, embora tenha tido uma péssima dublagem aqui no Brasil por conta do Luciano Huck, marcou o segundo renascimento da Disney, foi aclamado pela critica, e já apresentou um grande passo para uma nova era de ouro para a Disney, já que o estúdio passou os anos 2000 marginalizado por causa da excelência da Pixar.
    Filmes como: A Princesa e o Sapo, Enrolados, Detona Ralph, Frozen, Big Hero 6 e Zootopia, foram aclamados pelos críticos, foram excelentes em bilheterias e já entrou para lista dos melhores filmes da Disney, e marcou um segundo renascimento da Disney.
    Então, você não sabe o que fala, de falar que alguns desses filmes são fracos, porque esses filmes salvaram a Disney do fracasso e da imagem ruim que a empresa tava por conta de filmes que fracassaram nas bilheterias e não foram muito bem recebidos pelos críticos nos anos 2000.
    Você não gostar do filme, não quer dizer que ele seja fraco, até porque foram ACLAMADOS E AMADOS pelos críticos e pela maioria do público. Receberam notas altíssimas no Rotten Tomatoes. Pesquise mais antes de sair falando coisas que você não sabe.
    Claro que mesmo esses filmes sendo ótimos, não se compara com os clássicos antigos, mas ainda sim são MUITO melhores do as animações de outros estúdios e para época atual, não deixa nada a desejar.

    • Gabriel de Santana Lacerda

      vixxi

      vamos lá então…

      “Muito pelo contrário do que você disse, a Disney voltou a fazer bons filmes musicais desde “A Princesa e o Sapo”.” – não foi isso que eu falei, o que eu disse foi que eles poderiam ter feito nesse filme uma magnífica trilha sonora que há alguns anos eles não fazem, como fizeram em “A Princesa e o Sapo”;

      “[...]Até porque eles não faziam um musical bom desde o final dos anos 90[..]” – isso eu discordo, Lilo e Stitch, Irmão Urso e A Nova Onda do Imperador são excelentes musicais, mas minha opinião pessoal.

      “[...], e já apresentou um grande passo para uma nova era de ouro para a Disney, já que o estúdio passou os anos 2000 marginalizado por causa da excelência da Pixar. ” – Isso não é verdade. Você tem que lembrar ou então ” Pesquise mais antes de sair falando coisas que você não sabe”, mas os anos 2000 foram muito importantes para a Disney. Nessa época a parceria com John Lasseter gerou filmes DA DISNEY feitos pela pixar que geraram caralhões de dólares, alem de notas altíssimas, como Os Incríveis, Monstros S.A, Toy Story, etc. A Walt Disney Animation parou de fazer filmes? Não. Houveram os filmes lá em cima que eu mesmo falei, além de outras produções geniais como Planeta do Tesouro, Atlantis, e tal. O sucesso nessa época foi tamanho, que eles compraram a pixar em 2006, a MARVEL em 2009 E A LUCASFILM EM 2012!! Não me parece uma empresa que precisa ser salva de um fracassou ou imagem ruim

      “[...]Então, você não sabe o que fala, de falar que alguns desses filmes são fracos, porque esses filmes salvaram a Disney do fracasso e da imagem ruim que a empresa tava por conta de filmes que fracassaram nas bilheterias e não foram muito bem recebidos pelos críticos nos anos 2000.” -
      Lilo e Stitch:
      Orçamento US$ 80 milhões
      Receita US$ 273 milhões
      fonte: http://www.boxofficemojo.com/movies/?id=lilostitch.htm
      Atlantis:
      Orçamento US$ 90–120 milhões
      Receita US$ 186.053.725
      fonte: http://boxofficemojo.com/movies/?page=main&id=atlantis.htm
      Monstros S.A:
      Orçamento US$ 115.000.000
      Receita US$ 562.816.256
      fonte: http://boxofficemojo.com/movies/?id=monstersinc.htm
      Procurando Nemo:
      Orçamento US$ 94 milhões
      Receita US$ 936 743 261
      fonte: http://www.boxofficemojo.com/movies/?id=findingnemo.htm

      “Você não gostar do filme, não quer dizer que ele seja fraco, até porque foram ACLAMADOS E AMADOS pelos críticos e pela maioria do público.[...]” – Eu não falei que são filmes fracos! Eu falei que são filmes que eu não entendia e agora eu entendo. Volte ao primeiro parágrafo.

      Moça, obrigado por comentar, mas você leu a crítica? Se não tiver lido, é ruim comentar sem ter lido, mas isso vai explicar muita coisa. Se tiver lido, aí vai ser um problema sério, pq talvez esse seja um caso de analfabetismo funcional, pois vc leu a parada sem entender o que tava escrito.