A história do homem que simplesmente se perdeu

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Estreou no mês de junho um filme muito esperado pelos brasileiros, sejam eles fãs do icônico e polêmico Renato Russo ou não. “Faroeste Caboclo”, filme baseado na música homônima escrita pelo líder da Legião Urbana chegou ao cinema cercado de expectativa e curiosidade de como o diretor René Sampaio conseguiria adaptar e transformar uma música de quase 10 minutos em um filme.

Nesse texto não busco analisar detalhes técnicos ou a atuação dos principais atores e atrizes do filme. O que quero é fazer uma análise da adaptação dos versos da música, que causou grande polêmica e burburinho, principalmente entre os fãs mais diligentes da banda.

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Particularmente, sempre esperei que essa música (e também “Eduardo e Mônica”) um dia fossem adaptadas para outras mídias, pois as considero roteiros prontos em forma de música. E considero que a adaptação foi bem feita, apesar das críticas de muitos. É necessário considerar que na letra da música convergem-se partes em que há uma forte crítica social (“discriminação por causa da sua classe e sua cor”, “ele queria era falar com o presidente pra ajudar todas essa gente que só faz sofrer”), um romantismo exacerbado (“foi quando conheceu uma menina e de todos os seus pecados ele se arrependeu”, “Maria Lúcia pra sempre vou te amar e um filho com você eu quero ter”), elementos do western americano (“Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou”), elementos de glorificação do personagem principal (“e o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer”), voltas ao passado (“Era o terror da sertania onde morava e na escola até o professor com ele aprendeu”) entre outras coisas. Acho até lógico o diretor focar em algumas coisas em detrimento de outras para deixar o filme acessível a linguagem do cinema.

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A construção do personagem principal foi bem feita. Dá pra sentir todo o ódio carregado por João de Santo Cristo. Ódio nascido, sim, da sua dura infância em uma cidade do interior. Mas também por que não pensar que esse ódio e raiva eram inerentes a sua pessoa? Temos a tendência de pensar que todos somos bons, que desviamos dos caminhos corretos por causa apenas da influência dos amigos, da família, do sofrimento, das injustiças. Por isso que acho que o diretor acerta ao não retratar João como um “santo”, algum tipo de anti-herói que passou por maus bocados e agora quer fazer justiça com as próprias mãos. Não. No filme, João é alguém que sofreu, mas que apenas quer deixar de sofrer. Porque é justamente isso que todos nós queremos. Ou não é?

Uma grande polêmica se formou pelo filme retratar Maria Lúcia como uma mulher apaixonada, que faz de tudo por João. Isso porque na música, muitos dizem, subentende-se que Maria Lúcia, digamos assim, não foi muito honesta e fiel ao Santo Cristo. Olha, não gosto de adaptações literais de uma mídia para outra. Geralmente quando acontece isso se tem um sentimento de “ah, está igualzinho no livro”, “nossa, ficou igual, mas já tinha lido a HQ, então…”. Em relação a Maria Lúcia, gostei da construção da sua personagem, dando uma lufada de ar fresco ao filme, e também decepcionando aqueles que queriam uma adaptação “cirurgicamente” fiel da música.

Por último, e talvez a maior polêmica seja a falta de consciência política do João de Santo Cristo do filme. Hum…então todos aqueles que estão na cadeia ou que cometem crimes tem consciência política e querem mudar o país? Seria ótimo que isso acontecesse, mas sabemos que a realidade não é essa. “Mas um filme não é a realidade!” Sim, mas pode retratá-la. Não é porque esse personagem é retratado como alguém que se perde nos algures da vida, sem consciência de um papel relevante na sociedade, sem senso de que é transformador do seu destino, que o filme não nos transmita uma mensagem. A reflexão é justamente essa: quantas vezes nos encontramos fora de foco, perdidos, pelos acontecimentos do dia-a-dia, sem consciência política, consciência do bem-estar do companheiro, do rival no seu trabalho, do seu colega de escola? O Santo Cristo do filme é um homem educado para não ter consciência, como muitos de nós. Uma vítima de um sistema excludente, como muitos de nós. Um ser sem voz, como muitos de nós. Na música e no filme, esse nordestino sofredor não teve como mudar esse destino. Não houve tempo hábil, porque eram um filme e uma música. Pouco tempo!! Mas nós temos bastante tempo para trabalhar no nosso destino. O que faremos com ele é que precisamos pensar muito bem…

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Faroeste Caboclo é uma história de amor e sofrimento. Uma história de como o destino pode ser muitas vezes doloroso e cruel. Uma história real, de como é a vida daqueles que vivem sem privilégios, lutam uma batalha a cada dia. Uma história de sobrevivência…

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